domingo, 12 de junho de 2016

A volta do patrulheiro

O patrulheiro notívago retornou com seu apito estridente. Como boa escritora, estou a tecer literatura com os fios dos meus dramas pessoais em plena madrugada. São uma e trinta e nove da manhã. Ouço um barulho aqui e ali, um carro solitário, passos apressados, uma conversa sussurrada. Suspiro. Não consigo respirar direito. O ar não entra como deveria e minha respiração se torna ruidosa, ao menos para mim. 
Estou profundamente incomodada. Meus olhos estão ardendo por causa da luz. Por causa do choro. Choro de escritor não vale. Dai fazem-se rios de poesia. Daí se faz redenção, água salgada, sagrada pra lavar a alma, pra limpar pecado. A pele é fria ansiando pela quentura de outra pele. Os olhos estão turvos, embaçados, mas se esforçam para ver. As mãos estão trêmulas. A respiração é entrecortada, difícil. O patrulheiro se foi, tem agora o som do vento, dos grilos ao longe, bem lá longe. Talvez estejam todos aqui dentro e eu não perceba. A testa está morna, já testei. Passo a mão novamente, morna. A respiração vai se regulando com algumas fungadas, os dedos se arranjam quietos, os pés se unem debaixo das cobertas, os olhos vertentes jazem secos. O patrulheiro se foi. E eu já vou.