Abri a gaveta e o vidrinho com o perfume dela estava lá, intocado. Numa outra gaveta, o único bilhete que ela teve tempo de me dar. Respirei fundo. Não consegui mover nenhum dos dois do lugar, fiquei com medo de sentir algo diferente quando sentisse o perfume dela invadir minhas narinas. Eu passei por uma rua paralela à rua da casa dela sabendo que eu nunca mais percorreria aquele caminho, que eu nunca mais a veria para um abraço e um beijo de bom dia antes da aula, que eu nunca tomaria aquele sorvete que ficou prometido ou veria aquele filme que eu disse que não, mas tinha medo de ver só. Eu não poderia mais deixar marcas do meu batom pelo corpo dela ou cutucá-la só pra ver aquele sorriso que ela guardava pra mim, não poderia desarrumar e arrumar os fios desgrenhados, um a um ou beijá-la lentamente pra matar os quilos de saudade que eu carregava nas costas. Eu não sei o que fazer com os presentes que eu comprei e ainda não chegaram. Se eu finjo que não estou ou mando o entregador embora.
Ela desconstruiu de uma só vez os muros que eu levei vinte anos para construir, colocando meticulosamente tijolo a tijolo. Quando dei por mim, tudo tinha caído por terra e por incrível que pareça eu não me incomodei nenhum pouco. Ela quebrou, sem saber, todos os padrões que eu tinha estabelecido e organizado para poder lidar, ou tentar lidar, racionalmente com esse sentimento que eu possuía dentro de mim. Mas, mesmo que eu pensasse com o coração, não era igual o que eu sentia por ela às paixões que me rasgaram ao meio anteriormente. Eu sentia tudo com calma, sorvendo, um dia após o outro, a essência daquilo o que eu pensava que não alcançaria. Eu sabia que não conseguiria mais ficar longe dela e continuo pensando exatamente a mesma coisa cinco meses depois que nos conhecemos.
Não era a completude que se busca geralmente que eu tinha encontrado nela, mas um transbordamento de sentimentos simplórios e quanto mais comuns eles eram, melhor eu me sentia em poder cuidar dela, sentir sua presença, provocar uma gargalhada e ouvir que só eu mesma pra fazê-la rir numa situação daquelas, fosse qual fosse.
Conversávamos sobre tudo. Ainda conversamos, porque não conseguimos nos afastar. Numa dessas conversas, falamos sobre tatuagens, eu adoro, ela, nem tanto. Disse que não iria querer estar por perto quando as fizesse. Ela não tinha percebido que já tinha virado tatuagem em mim, coisa que vem e fica pro resto da vida, que marca e quando se olha pra ela, se lembra de momentos, inúmeros deles.
Troquei de celular recentemente e perdi grande parte das fotos que tinha compartilhado com ela. Compartilhávamos inúmeras, o dia inteiro, todos os dias. Estávamos juntas quando eu vi, no celular dela, a primeira imagem que ela tinha me mandado e rimos do contexto no qual aquela foto estava inserida, dentro daquela nossa redoma particular. Nos entreolhamos.
Eu refleti por horas inteiras, seguidas. Madrugadas, manhãs, noites adentro de insônia e ainda não sei direito o que fazer. Eu não posso mudar quem eu sou ou o que eu sou. Silêncio.