Nenhum dia era igual. Dentro da luz azulada que emanava da minha apatia eu me arrastava pelos dias, me arrasto. Quando eu sou a terceira pessoa tentando escrever uma história que talvez não seja minha. Mas é isso o que os escritores fazem, e as escritoras. Eles se apropriam de histórias que não são deles, de corpos que não o são, de desejos que não lhes pertencem. Quando a playlist tocava, repetidas vezes, as músicas que ela havia me dito que gostava, eu pensei na peculiaridade daquele gosto, daqueles arranjos, da voz que conduzia aquelas músicas, tão grave quanto a ânsia que ardia em mim e que desejava conduzir aquele corpo que não era necessariamente meu, que talvez não passasse de idealização.
Mas nada é ideal. Nada que transpassa as veias da humanidade é ideal. Não as coisas que atravessam o desejo do corpo e o crepitar da alma, o desejo inflamado e descontrolado. Pelas minhas contas, se passaram cerca de vinte e sete dias, como os vinte e sete anos da Amy, de um ocaso previsto já e adiado pela crença em algo que também não era meu. Não era para ser.
Cerca de vinte e dois minutos depois e três músicas nas quais prestei atenção, meu ombro direito dói e meu corpo se esvazia por conta do desejo de algo que não me pertence. A pertença então é complexa no sentido de assenhorear. Não dá para ser senhor de si própria, imagine... Mas a fome não deixa de possuir meu corpo e a visão dela não deixa de umedecer meus pensamentos.