Não há nada de bom nos jornais, todos os dias
as tragédias enchem as páginas acinzentadas que, seguradas por mãos firmes,
deixam as gotas do sangue de suas vítimas escorrerem. As veias do medo andam
cheias.
Outro dia
estava no ônibus, hora do rush e o mau humor tomando conta de mim.
“Ele não sai
do lugar”, eu pensava, “ainda por cima com crianças perto de mim.” Mas aquele
era o único lugar vago. Não é que eu odeie crianças ou algo assim, mas nessas
horas qualquer coisa me irrita. Prossigamos.
O menino era
até bem quieto, o que com certeza amenizou meu mau humor. Mas, como toda
criança, não parava de falar (pelo menos não gritava).
“Um dia vou
ser um herói, eu não tenho medo”, o menino dizia repetidas vezes à mãe, que
sorria. Sorri involuntariamente me lembrando de como eu pensava parecido. “Não
sinto medo.”
“Sabe por que
ficam fechadas?” Ele perguntou apontando as janelas.
“Por quê?” A
mãe perguntou gentilmente.
“Pra ladrão
não entrar”, ele dizia num tom sério.
“De ladrão
você tem medo, João?” Ela perguntou.
“Tenho, são
homens maus.”
E então eu
comecei a pensar, quando foi que deixamos nossas crianças se preocuparem com
“problemas de adulto”? Desde quando elas pararam de pedir que dissessem que não
havia nada embaixo da cama? Desde quando pararam de olhar os armários buscando
monstros pra procurar por criminosos?
Eu penso em
como foi minha infância, em como as únicas coisas das quais eu precisava ter
medo (mesmo dizendo que não tinha) eram das assombrações que inventavam, penso
na lanterna que eu carregava pra me proteger do medo que eu tinha do escuro.
Eles não têm mais medo do escuro, têm do que pode estar lá, de quem pode estar.
Como deixamos chegar a esse ponto?
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