segunda-feira, 12 de outubro de 2015

O Bicho Papão dos tempos modernos

          Não há nada de bom nos jornais, todos os dias as tragédias enchem as páginas acinzentadas que, seguradas por mãos firmes, deixam as gotas do sangue de suas vítimas escorrerem. As veias do medo andam cheias.
Outro dia estava no ônibus, hora do rush e o mau humor tomando conta de mim.
“Ele não sai do lugar”, eu pensava, “ainda por cima com crianças perto de mim.” Mas aquele era o único lugar vago. Não é que eu odeie crianças ou algo assim, mas nessas horas qualquer coisa me irrita. Prossigamos.
O menino era até bem quieto, o que com certeza amenizou meu mau humor. Mas, como toda criança, não parava de falar (pelo menos não gritava).
“Um dia vou ser um herói, eu não tenho medo”, o menino dizia repetidas vezes à mãe, que sorria. Sorri involuntariamente me lembrando de como eu pensava parecido. “Não sinto medo.”
“Sabe por que ficam fechadas?” Ele perguntou apontando as janelas.
“Por quê?” A mãe perguntou gentilmente.
“Pra ladrão não entrar”, ele dizia num tom sério.
“De ladrão você tem medo, João?” Ela perguntou.
“Tenho, são homens maus.”
E então eu comecei a pensar, quando foi que deixamos nossas crianças se preocuparem com “problemas de adulto”? Desde quando elas pararam de pedir que dissessem que não havia nada embaixo da cama? Desde quando pararam de olhar os armários buscando monstros pra procurar por criminosos?
Eu penso em como foi minha infância, em como as únicas coisas das quais eu precisava ter medo (mesmo dizendo que não tinha) eram das assombrações que inventavam, penso na lanterna que eu carregava pra me proteger do medo que eu tinha do escuro. Eles não têm mais medo do escuro, têm do que pode estar lá, de quem pode estar. Como deixamos chegar a esse ponto?



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