Foi a primeira vez. A primeira vez que os lábios
daquela moça se encontraram com os meus daquele modo, que o corpo dela pairava
sob o meu, envolto na penumbra que escondia a formosura e as curvas. A primeira
vez em que a visão e todos os acontecimentos juntos se sobrepuseram ao meu
poder descritivo, eu não sabia por onde começar. Não acreditei no que aqueles
olhos baixos e tímidos me escondiam. E quando já desnuda, seu corpo parecia se
alongar, em busca de prolongar o prazer, as formas que minha boca tateava no
escuro eram vagarosamente saborosas.
Quando a luz penetrava o cômodo e o corpo
se retorcia, eu via as formas que se interpunham entre minha boca e a dela. As
montanhas das costelas faziam nítidos os vales que lhe desciam pelo abdômen até
a depressão do umbigo e o prazer daquela moça então desaguava na minha boca,
sedenta. As mãos dela me tateavam para me levar mais para perto, um pouco mais,
mais, até atravessar todo o caminho. Até o corpo quente e as mãos firmes se
derreterem na minha boca, boca essa que encontrou a boca dela em seguida. Não
sei quando, em que momento, no escuro não havia horas, não se via a lua.
Já ao
amanhecer, enquanto a luz do sol penetrava preguiçosamente o recinto, a sombra
dos nossos lábios se encontrava delicadamente no colchão enquanto os
substantivos se uniam para formar uma oração meio arfada. Quando busquei
naquele momento descrever, não o soube e provavelmente não o sei agora. Mas era
mais que poesia, humildemente recorri à minha biblioteca mental mas não tive a
pretensão de saber. Me perguntei, junto à minha racionalidade, se aquele era o
mesmo corpo que eu tinha encontrado inúmeras vezes, provavelmente também não
era o meu o mesmo. Também isso não sei. Mas sei que sinto falta daquele corpo
próximo ao meu, daquele cheiro me penetrando e inconscientemente me levando a
um estado de maciez no espírito, de leveza, das histórias contadas de manhã
cedo, do sorriso leve tão próximo e tão nítido aos meus olhos míopes, das
curvas do nariz, dos traços do pescoço, das clavículas e dos demais desenhos
que me fizeram contemplar seu corpo.