quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Desertor de vidas alheias



Carlos Magno era um rapaz cheio de incertezas, magrelo, destemperado, tímido e sensato. Nunca se sentia bem em lugar nenhum, com ninguém. A impressão que tinha era a de estar vivendo uma vida que não era dele, como quando a gente usa roupa emprestada e simplesmente se sente mal. Adorava os desenhos do Millôr e queria ser escritor quando crescesse. Completou seus 18 anos e não sabia o que fazer da vida, não era aquele curso o seu, nem aquela retórica toda, os trejeitos, os poemas desajeitados. Adquiriu, pela angústia, alguns vícios e percebeu que estes realmente eram dele. Entrava e saia das vidas das pessoas como quem entra e sai do supermercado errado porque não tinha o que buscava ou porque se enganou com o endereço. Trazia um violão velho e desafinado, mas o tocava com esmero, percebia a vida passar a cada cinco minutos que demorava para tragar um cigarro e, sem mais nem menos ia embora como quem se esgota do ambiente, de não estar em casa, de nunca se sentir confortável com nada. Percebe então que sua casa é aonde seus pés tocam. E só. Aquilo o que está a sabe-se-lá quantos quilômetros não é seu, tampouco é outro possuidor de seu carisma e de sua escrita frouxa. Sua mãe lhe dera o nome por causa do imperador, mas Magno não era assim tão grande, era medíocre até, bem comum.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Nômade do asfalto

     Milena tinha 18 anos, cursava psicologia e alimentava um desejo que pelo menos metade das pessoas com a idade dela também tem: cair no mundo sem rumo. Ela dizia que a faculdade a estava deixando louca, mas não sabia o que fazer, então continuava lá, enlouquecendo. Sua mãe não apoiava a tal viagem de autoconhecimento que ela propunha e quase nunca ouvia.
    Milena se viu presa num mundo cheio de absurdos, era sensível, se envolvia demais com as coisas e morria um pouco a cada traição que percebia – por parte de quem quer que fosse, estava desacreditada.
      Depois de três meses, ela tirou a carteira de habilitação e decidiu pôr seu plano em prática, trancou a faculdade, arrumou a mala e deu o fora no meio da noite com o carro do pai, deixou o celular e um bilhete para a mãe.
      -- Milena está louca, Arnaldo, inventava essas ideias de ir-se embora, veja se tem cabimento. – Ela imaginava sua mãe falando. – Deve ter sido essa faculdade, essas companhias, eu avisei, Arnaldo, eu avisei.
      -- Deixe de tolice, Helena, nossa filha já é crescida e anda com as próprias pernas, se disse que estará bem, ela estará, agora durma.
      -- Mas Arnaldo...
      -- Além disso, ela já é maior de idade, agora durma.
      Na saída da cidade pegou o caminho esquerdo, levou a playlist preferida e ia vendo como a cidade era bonita à noite com todos aqueles desenhos que as luzes produziam nos prédios e na rua. Milena sempre preferira a noite e por algum motivo detestava o pôr do sol.
      Dirigiu por uns trezentos quilômetros e parou para ver o sol nascer, depois ia arrumar um mapa e conhecer o que lhe desse na telha. Iria encontrar um velho sábio em cada parada, apaixonar-se por um estrangeiro, ter o coração partido, cantar para as estrelas, dançar na chuva, curar-se, chorar de saudades, escrever o primeiro diário e se descobriria, saberia o que fazer quando voltasse.
       A sós com ela mesma, Milena nunca se sentiu tão bem acompanhada.