Carlos Magno era um
rapaz cheio de incertezas, magrelo, destemperado, tímido e sensato. Nunca se
sentia bem em lugar nenhum, com ninguém. A impressão que tinha era a de estar
vivendo uma vida que não era dele, como quando a gente usa roupa emprestada e simplesmente
se sente mal. Adorava os desenhos do Millôr e queria ser escritor quando
crescesse. Completou seus 18 anos e não sabia o que fazer da vida, não era
aquele curso o seu, nem aquela retórica toda, os trejeitos, os poemas
desajeitados. Adquiriu, pela angústia, alguns vícios e percebeu que estes
realmente eram dele. Entrava e saia das vidas das pessoas como quem entra e sai
do supermercado errado porque não tinha o que buscava ou porque se enganou com
o endereço. Trazia um violão velho e desafinado, mas o tocava com esmero,
percebia a vida passar a cada cinco minutos que demorava para tragar um cigarro
e, sem mais nem menos ia embora como quem se esgota do ambiente, de não estar
em casa, de nunca se sentir confortável com nada. Percebe então que sua casa é
aonde seus pés tocam. E só. Aquilo o que está a sabe-se-lá quantos quilômetros
não é seu, tampouco é outro possuidor de seu carisma e de sua escrita frouxa. Sua
mãe lhe dera o nome por causa do imperador, mas Magno não era assim tão grande,
era medíocre até, bem comum.
Não escrevo poesia, o título foi só um trocadilho legal que eu achei, mas pode procurar os versos brancos dentro da minha prosa. Aviso logo que este blog abriga conteúdo sentimental intenso, então esteja em dia com o seu cardiologista antes de lê-lo. Aviso também que sou apenas responsável por aquilo que escrevo, interprete como lhe convier. Quando crescer quero ser uma raposa, por hora sou apenas uma menina.
quarta-feira, 10 de dezembro de 2014
segunda-feira, 8 de dezembro de 2014
Nômade do asfalto
Milena tinha 18
anos, cursava psicologia e alimentava um desejo que pelo menos metade das
pessoas com a idade dela também tem: cair no mundo sem rumo. Ela dizia que a
faculdade a estava deixando louca, mas não sabia o que fazer, então continuava
lá, enlouquecendo. Sua mãe não apoiava a tal viagem de autoconhecimento que ela
propunha e quase nunca ouvia.
Milena se viu
presa num mundo cheio de absurdos, era sensível, se envolvia demais com as
coisas e morria um pouco a cada traição que percebia – por parte de quem quer
que fosse, estava desacreditada.
Depois de três
meses, ela tirou a carteira de habilitação e decidiu pôr seu plano em prática,
trancou a faculdade, arrumou a mala e deu o fora no meio da noite com o carro
do pai, deixou o celular e um bilhete para a mãe.
-- Milena está
louca, Arnaldo, inventava essas ideias de ir-se embora, veja se tem cabimento.
– Ela imaginava sua mãe falando. – Deve ter sido essa faculdade, essas
companhias, eu avisei, Arnaldo, eu avisei.
-- Deixe de
tolice, Helena, nossa filha já é crescida e anda com as próprias pernas, se
disse que estará bem, ela estará, agora durma.
-- Mas
Arnaldo...
-- Além disso,
ela já é maior de idade, agora durma.
Na saída da
cidade pegou o caminho esquerdo, levou a playlist
preferida e ia vendo como a cidade era bonita à noite com todos aqueles
desenhos que as luzes produziam nos prédios e na rua. Milena sempre preferira a
noite e por algum motivo detestava o pôr do sol.
Dirigiu por uns
trezentos quilômetros e parou para ver o sol nascer, depois ia arrumar um mapa
e conhecer o que lhe desse na telha. Iria encontrar um velho sábio em cada
parada, apaixonar-se por um estrangeiro, ter o coração partido, cantar para as
estrelas, dançar na chuva, curar-se, chorar de saudades, escrever o primeiro
diário e se descobriria, saberia o que fazer quando voltasse.
A sós com ela
mesma, Milena nunca se sentiu tão bem acompanhada.
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