segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Nômade do asfalto

     Milena tinha 18 anos, cursava psicologia e alimentava um desejo que pelo menos metade das pessoas com a idade dela também tem: cair no mundo sem rumo. Ela dizia que a faculdade a estava deixando louca, mas não sabia o que fazer, então continuava lá, enlouquecendo. Sua mãe não apoiava a tal viagem de autoconhecimento que ela propunha e quase nunca ouvia.
    Milena se viu presa num mundo cheio de absurdos, era sensível, se envolvia demais com as coisas e morria um pouco a cada traição que percebia – por parte de quem quer que fosse, estava desacreditada.
      Depois de três meses, ela tirou a carteira de habilitação e decidiu pôr seu plano em prática, trancou a faculdade, arrumou a mala e deu o fora no meio da noite com o carro do pai, deixou o celular e um bilhete para a mãe.
      -- Milena está louca, Arnaldo, inventava essas ideias de ir-se embora, veja se tem cabimento. – Ela imaginava sua mãe falando. – Deve ter sido essa faculdade, essas companhias, eu avisei, Arnaldo, eu avisei.
      -- Deixe de tolice, Helena, nossa filha já é crescida e anda com as próprias pernas, se disse que estará bem, ela estará, agora durma.
      -- Mas Arnaldo...
      -- Além disso, ela já é maior de idade, agora durma.
      Na saída da cidade pegou o caminho esquerdo, levou a playlist preferida e ia vendo como a cidade era bonita à noite com todos aqueles desenhos que as luzes produziam nos prédios e na rua. Milena sempre preferira a noite e por algum motivo detestava o pôr do sol.
      Dirigiu por uns trezentos quilômetros e parou para ver o sol nascer, depois ia arrumar um mapa e conhecer o que lhe desse na telha. Iria encontrar um velho sábio em cada parada, apaixonar-se por um estrangeiro, ter o coração partido, cantar para as estrelas, dançar na chuva, curar-se, chorar de saudades, escrever o primeiro diário e se descobriria, saberia o que fazer quando voltasse.
       A sós com ela mesma, Milena nunca se sentiu tão bem acompanhada.

      

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