sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Uma coleção de clichês

O nosso primeiro beijo foi no cinema. Estávamos ainda tentando nos adaptar uma à outra, ela passou a mão pelo meu corpo e ficamos abraçadas ora fingindo assistir ao filme, ora nos beijando. Fiquei completamente desconfortável, não por causa do abraço (inesperado, preciso dizer), mas porque as cadeiras não me permitiam ficar naquela posição por mais de dez minutos, não tinha aquele braço retrátil que colocam pensando justamente nos casais que vão ao cinema. Ficamos lá, eu cantei a música do final do filme e ela gostou, passei o link para ela, ela gostou do clipe.
Fomos ao parque, nos beijamos com um pouco mais de intimidade, nos abraçamos mais confortavelmente e nos deixamos ficar abraçadas por um bom tempo, saímos de mãos dadas.  Tudo isso no primeiro encontro. O perfume dela ficou na minha camisa, dormi abraçada a ela. Preciso dizer que ela se atrasou, nem eu nem ela tínhamos internet, meu telefone já estava nas últimas, e quando eu pensei ter levado um bolo, a vi na fila pra comprar o bilhete do filme, nos abraçamos sem graça.
Desde o primeiro dia eu adorei os detalhes do rosto dela, aquele vincozinho que liga o septo ao lábio superior me conquistou de primeira. Conversamos sobre muitas coisas, eu não pensei que seria assim, para falar a verdade, não pensei que nada fosse ou pudesse nascer dali, mas me peguei desejando o dia em que nos veríamos de novo. Tudo isso no primeiro encontro.
Tivemos pelo menos um encontro por semana desde então, ela me incluiu na rotina dela e eu a inclui na minha, não podia haver nada mais clichê, mas eu me senti confortável quando ela estava lá para que eu relatasse outro episódio monótono da minha vida, quando eu estava lá para ouvir um dela. E fomos, encontro após encontro, dizendo timidamente que gostávamos uma da outra, depois era intenso e cada dia mais, intenso e recíproco.
Passamos por coisas ruins também, me mostrei insegura e com medo em determinadas situações pelas quais nós duas passaríamos, o exame para tirar a carteira de habilitação, uma prova para a qual se tem que estudar mais arduamente, os períodos em que não pudemos nos ver por causa dessas provas. E quando nos víamos depois do que parecia uma eternidade, a conexão aumentava, eu não exagero quando digo que numa dessas sessões de cinema não desgrudamos um minuto sequer. Eu não faço ideia do enredo do filme até hoje, mas não me dei ao trabalho de assisti-lo novamente.
A escrevi cartas, comprei chocolates em caixas decoradas, uma caneca do personagem favorito dela, passamos o aniversário dela e o meu juntas, um dia dos namorados em que ainda não éramos oficialmente namoradas, alguns feriados, uns períodos conturbados na vida de qualquer estudante universitária. Assistimos alguns filmes na casa dela, mas sempre acabávamos nos distraindo com a conversa entre um beijo e  outro, entre as análises corporais que se fazem. “Seu pé é estranho, seus dedos são muito compridos, os seus muitos miúdos...” E discutimos sobre o tamanho do nariz, das mãos, a grossura das pernas, o tamanho dos olhos, o grau dos nossos óculos, entre um riso e outro.
Disse a ela que adorava o jeito como ela morava na casa inteira, seu espaço não se restringia a seu quarto e ao outro quarto onde estudava. Eu me tornei casa dela porque ela morava em mim inteira. Disse que adorava o jeito como ela deixava o cabelo cair de lado quando o prendia no alto da cabeça, como era cumprido, como eu me perdia nele de vez em quando, mas eu adorava.
Ela disse o quanto gostava do meu estilo, das minhas roupas, dessa imponência tímida e natural que eu tinha, mas ela detestava o jeito como eu demorava a comer algumas coisas ou minha lentidão para andar. Ela parecia estar sempre impaciente e com pressa e eu buscava apreciar cada elemento das paisagens, ver o que estava diferente desde a última vez em que estivemos naquele lugar. E quando ela corria na minha frente eu apreciava a caminhada ao observá-la com meus olhos míopes.
Nossa relação não teve brigas homéricas, discutimos algumas vezes, mas pedíamos desculpas, nos beijávamos e tudo estava bem de novo. Eu me expus a ela, disse tudo o que sentia sem cerimônias, como se fosse a coisa mais simples do mundo, para mim nunca foi. Ela se permitiu fazer o mesmo.
Cerca de 210 dias se passaram desde que nos conhecemos para encarar um fim brusco. Ambas famílias conservadoras, caímos numa armadilha do destino, da impotência de não poder fazer nada. Ainda. Choramos juntas. Tentamos ainda combater isso, parecia impossível que nos afastássemos voluntariamente. Mas não deu, perdemos essa. Nos perdemos uma da outra. Aquele dia foi doloroso, os dias que se seguiram também. Para falar a verdade escrever tudo isso ainda é cruelmente doloroso. Eu não posso estar com ela por seu eu. Ponto.
Naquele dia eu me senti derrotada como nunca fui, porque eu sempre tinha força e raiva para revidar, sempre tinha dentes para morder a mão de quem me bate, mas naquele dia minhas garras pareciam ter sido arrancadas. Eu era um cordeiro. Meus lobos estavam completamente feridos, destroçados. Eu não tinha força para ter raiva, parecia haver um peso tão grande nas minhas costas que fazia minha respiração  se tornar difícil, ruidosa.
Ainda assim, juraríamos que mesmo fisicamente longe continuávamos a ser uma da outra, não como uma posse ou um bem, nem eu nem ela gostávamos disso, mas como as peças de um quebra-cabeça que andam por aí, mas vira e mexe sempre se encaixam de novo. Desde o primeiro encontro ela se encaixou no meu corpo para um abraço e então descobrimos diversos outros encaixes.

Lá fora chove torrencialmente, quando chove, nas histórias, significa que haverá reviravolta na vida dos personagens, eu espero que quem estiver por aí escrevendo essa história tenha plena consciência disso. 

sábado, 8 de outubro de 2016

Quando cai a ficha

Abri a gaveta e o vidrinho com o perfume dela estava lá, intocado. Numa outra gaveta, o único bilhete que ela teve tempo de me dar. Respirei fundo. Não consegui mover nenhum dos dois do lugar, fiquei com medo de sentir algo diferente quando sentisse o perfume dela invadir minhas narinas. Eu passei por uma rua paralela à rua da casa dela sabendo que eu nunca mais percorreria aquele caminho, que eu nunca mais a veria para um abraço e um beijo de bom dia antes da aula, que eu nunca tomaria aquele sorvete que ficou prometido ou veria aquele filme que eu disse que não, mas tinha medo de ver só. Eu não poderia mais deixar marcas do meu batom pelo corpo dela ou cutucá-la só pra ver aquele sorriso que ela guardava pra mim, não poderia desarrumar e arrumar os fios desgrenhados, um a um ou beijá-la lentamente pra matar os quilos de saudade que eu carregava nas costas. Eu não sei o que fazer com os presentes que eu comprei e ainda não chegaram. Se eu finjo que não estou ou mando o entregador embora.

Ela desconstruiu de uma só vez os muros que eu levei vinte anos para construir, colocando meticulosamente tijolo a tijolo. Quando dei por mim, tudo tinha caído por terra e por incrível que pareça eu não me incomodei nenhum pouco. Ela quebrou, sem saber, todos os padrões que eu tinha estabelecido e organizado para poder lidar, ou tentar lidar, racionalmente com esse sentimento que eu possuía dentro de mim. Mas, mesmo que eu pensasse com o coração, não era igual o que eu sentia por ela às paixões que me rasgaram ao meio anteriormente. Eu sentia tudo com calma, sorvendo, um dia após o outro, a essência daquilo o que eu pensava que não alcançaria. Eu sabia que não conseguiria mais ficar longe dela e continuo pensando exatamente a mesma coisa cinco meses depois que nos conhecemos.

Não era a completude que se busca geralmente que eu tinha encontrado nela, mas um transbordamento de sentimentos simplórios e quanto mais comuns eles eram, melhor eu me sentia em poder cuidar dela, sentir sua presença, provocar uma gargalhada e ouvir que só eu mesma pra fazê-la rir numa situação daquelas, fosse qual fosse.

Conversávamos sobre tudo. Ainda conversamos, porque não conseguimos nos afastar. Numa dessas conversas, falamos sobre tatuagens, eu adoro, ela, nem tanto. Disse que não iria querer estar por perto quando as fizesse. Ela não tinha percebido que já tinha virado tatuagem em mim, coisa que vem e fica pro resto da vida, que marca e quando se olha pra ela, se lembra de momentos, inúmeros deles.

Troquei de celular recentemente e perdi grande parte das fotos que tinha compartilhado com ela. Compartilhávamos inúmeras, o dia inteiro, todos os dias. Estávamos juntas quando eu vi, no celular dela, a primeira imagem que ela tinha me mandado e rimos do contexto no qual aquela foto estava inserida, dentro daquela nossa redoma particular. Nos entreolhamos.

Eu refleti por horas inteiras, seguidas. Madrugadas, manhãs, noites adentro de insônia e ainda não sei direito o que fazer. Eu não posso mudar quem eu sou ou o que eu sou. Silêncio.

domingo, 12 de junho de 2016

A volta do patrulheiro

O patrulheiro notívago retornou com seu apito estridente. Como boa escritora, estou a tecer literatura com os fios dos meus dramas pessoais em plena madrugada. São uma e trinta e nove da manhã. Ouço um barulho aqui e ali, um carro solitário, passos apressados, uma conversa sussurrada. Suspiro. Não consigo respirar direito. O ar não entra como deveria e minha respiração se torna ruidosa, ao menos para mim. 
Estou profundamente incomodada. Meus olhos estão ardendo por causa da luz. Por causa do choro. Choro de escritor não vale. Dai fazem-se rios de poesia. Daí se faz redenção, água salgada, sagrada pra lavar a alma, pra limpar pecado. A pele é fria ansiando pela quentura de outra pele. Os olhos estão turvos, embaçados, mas se esforçam para ver. As mãos estão trêmulas. A respiração é entrecortada, difícil. O patrulheiro se foi, tem agora o som do vento, dos grilos ao longe, bem lá longe. Talvez estejam todos aqui dentro e eu não perceba. A testa está morna, já testei. Passo a mão novamente, morna. A respiração vai se regulando com algumas fungadas, os dedos se arranjam quietos, os pés se unem debaixo das cobertas, os olhos vertentes jazem secos. O patrulheiro se foi. E eu já vou. 

sexta-feira, 18 de março de 2016

O bebê

Meu sobrinho tava aqui em casa. Eu tava cheia de tarefa, verificando coisa nas redes sociais, no computador, tentando analisar a viabilidade de um ensaio, tentando ouvir as notícias nacionais pelo rádio e as locais pela TV enquanto meus pais as discutiam. Não estava fácil.
Até que, por algum motivo, a tampa da mamadeira emperrou – alguém deve ter apertado com força demais e aquilo simplesmente não saía. O bebê começou a chorar, minha mãe me chamou, começou a falar mais alto e mais rápido. “Meu Deus”, pensei. “Quem raios apertou isso assim?” E o bebê não parava de chorar e minha mãe não parava de falar. Tentei andar mais rápido.
Numa medida desesperada, arrumei outra mamadeira e abri a primeira, espirrou leite pra todo lado. “Em mim inclusive.” Transferi um pouco do conteúdo da primeira para a segunda mamadeira e, como numa corrida de revezamento, passei-a heroicamente para as mãos da minha mãe, que tinha o miúdo no colo. Assim que sentiu o leite, ele se acalmou e todo mundo se acalmou junto.

Olhei em volta, tinha leite no chão, no chinelo, na mesa, na pia e na minha mãe. Um a um, fui recolhendo os destroços pela casa. Ainda sem conseguir arrumar a tampa da primeira mamadeira. 

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Cortando o mal pela cepa

               Incontáveis os números de vezes em que ouvi tal expressão, quem conviveu com pessoas mais velhas com certeza deve ter ouvido e sabe que quer dizer “arrancar o mal pela raiz”.

            Andei pensando bastante nisso, nas raízes das coisas, de onde elas vêm, principalmente os males da desigualdade (social, racial, religiosa) e do machismo especialmente. Quando cruzei uma rua próxima à minha casa para ir até o mercado vi um garotinho loiro de cabelos cacheados, o miúdo devia ter uns dois ou três anos de idade. Ele pediu à mãe para ir ao banheiro, cruzava as pernas, apertado. Ela simplesmente abaixou as calças dele (no meio do canteiro num cruzamento de quatro ruas, movimentadas até) e disse a ele para urinar ali mesmo.

            É uma cena até comum, as próprias mães ensinam os garotos a não se inibirem diante do trânsito de pessoas em qualquer lugar e, como certos velhos hábitos nem sempre morrem, eles se tornam aqueles caras babacas que urinam em qualquer lugar sem se importar com quem passa ou com quem poderia se ofender com a cena. Mas de quem é a culpa?

            Sinceramente? Eu não faço ideia, não sei quem disse que isso era legal, essa coisa de expor a criança, não sei quem disse à mãe que tudo bem ou quem nos avisa que, se nos incomodarmos, basta virar o rosto.

            Como pessoa do sexo feminino, cresci aprendendo a ter medo. Não pegue carona com nenhum homem sozinha (mesmo se for conhecido), ou fique num ambiente fechado com ele, afinal, ele não sabe se controlar, “ele é homem” e isso reduz a pessoa do sexo masculino a um animal afoito pelos próprios instintos enquanto as mulheres se tornam presas, frutos à espera do seu ceifador, pequenas rosas que retraem seus espinhos para serem defloradas e, caladas, pertencerem a ele, mesmo que, por ele “ser homem”, ele não necessariamente precise pertencer a ela, (não no sentido de posse, mas de fidelidade).

            Nós, meninas, moças, mulheres, somos criadas para ter medo por sermos “o sexo frágil”. Inúmeras foram as vezes em que tive que ouvir (e passamos por isso todos os dias) comentários sobre minha capacidade de dirigir um veículo robusto, consertá-lo, me virar sozinha. “Quando você tiver um marido...” Se tivesse dez mãos ainda não contaria as vezes em que revirei os olhos para a objetificação da mulher, do seu corpo e para a depreciação do seu trabalho.

Por experiência própria, as pessoas se surpreendem quando abro a boca para dizer que ocupo um cargo de liderança em algum lugar, mostro meu currículo, dou um aperto de mão “muito firme para uma menina”, demonstro meu interesse técnico por carros e digo que acertei mais mecânica do que legislação na prova do Detran.   

Não só as mulheres, os homens precisam também fazer parte do debate feminista e tolerante, afinal somos todos humanos.

            

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Experiência Interiorana

Morei durante muitos anos em uma cidade do interior. Um hábito comum por lá é andar de moto de forma banal, sem destino, apenas vagar pela cidade. Eu não entendia isso até estar estupidamente excitada na garupa de uma Biz a 60 por hora. Com um rapaz pilotando, o medo de cair era inerente à situação, as ruas eram íngremes e escorregadias e eu não podia deixar de me preocupar com isso, mas decidi confiar no meu piloto.
         Éramos seis em três motos, uma tinha problemas e desligava sozinha às vezes, a minha parou logo no início, mas retomamos a “corrida” para aliviar o tédio. Quando finalmente deixei de lado que o que estávamos fazendo poderia parecer estúpido, me dei conta de que não podia ser inconsequente sozinha e que precisava de alguém para me ajudar a, em alguns momentos, ser um pouco menos prudente. Com a garota que eu estava a fim na moto da frente, desejei alcançá-la. Obviamente queria estar na garupa da moto com ela, sentindo o cheiro de perto e vendo o pescoço que meus lábios não hesitariam em percorrer, sua presença por si só me deixava profundamente alterada.

         Eu e meu parceiro assumimos a liderança do grupo e eu me senti bem, muito bem, a excitação percorreu minhas veias e a adrenalina aqueceu meu corpo. Lembrei-me de Charlie, de que éramos infinitos e, no limiar da minha vida adulta, experimentei a imprudência de ser adolescente enquanto as pessoas falavam abertamente do quanto éramos estabanados ou qualquer outro adjetivo ao qual não fiz questão de prestar atenção. Só senti a moto vibrar sob mim, o vento no meu rosto e a euforia no meu corpo.