O nosso
primeiro beijo foi no cinema. Estávamos ainda tentando nos adaptar uma à outra,
ela passou a mão pelo meu corpo e ficamos abraçadas ora fingindo assistir ao
filme, ora nos beijando. Fiquei completamente desconfortável, não por causa do
abraço (inesperado, preciso dizer), mas porque as cadeiras não me permitiam
ficar naquela posição por mais de dez minutos, não tinha aquele braço retrátil
que colocam pensando justamente nos casais que vão ao cinema. Ficamos lá, eu
cantei a música do final do filme e ela gostou, passei o link para ela, ela gostou do clipe.
Fomos ao
parque, nos beijamos com um pouco mais de intimidade, nos abraçamos mais
confortavelmente e nos deixamos ficar abraçadas por um bom tempo, saímos de
mãos dadas. Tudo isso no primeiro
encontro. O perfume dela ficou na minha camisa, dormi abraçada a ela. Preciso
dizer que ela se atrasou, nem eu nem ela tínhamos internet, meu telefone já
estava nas últimas, e quando eu pensei ter levado um bolo, a vi na fila pra
comprar o bilhete do filme, nos abraçamos sem graça.
Desde o
primeiro dia eu adorei os detalhes do rosto dela, aquele vincozinho que liga o
septo ao lábio superior me conquistou de primeira. Conversamos sobre muitas
coisas, eu não pensei que seria assim, para falar a verdade, não pensei que
nada fosse ou pudesse nascer dali, mas me peguei desejando o dia em que nos
veríamos de novo. Tudo isso no primeiro encontro.
Tivemos pelo
menos um encontro por semana desde então, ela me incluiu na rotina dela e eu a
inclui na minha, não podia haver nada mais clichê, mas eu me senti confortável
quando ela estava lá para que eu relatasse outro episódio monótono da minha
vida, quando eu estava lá para ouvir um dela. E fomos, encontro após encontro,
dizendo timidamente que gostávamos uma da outra, depois era intenso e cada dia
mais, intenso e recíproco.
Passamos por
coisas ruins também, me mostrei insegura e com medo em determinadas situações
pelas quais nós duas passaríamos, o exame para tirar a carteira de habilitação,
uma prova para a qual se tem que estudar mais arduamente, os períodos em que não
pudemos nos ver por causa dessas provas. E quando nos víamos depois do que
parecia uma eternidade, a conexão aumentava, eu não exagero quando digo que
numa dessas sessões de cinema não desgrudamos um minuto sequer. Eu não faço
ideia do enredo do filme até hoje, mas não me dei ao trabalho de assisti-lo
novamente.
A escrevi
cartas, comprei chocolates em caixas decoradas, uma caneca do personagem
favorito dela, passamos o aniversário dela e o meu juntas, um dia dos namorados
em que ainda não éramos oficialmente namoradas, alguns feriados, uns períodos
conturbados na vida de qualquer estudante universitária. Assistimos alguns
filmes na casa dela, mas sempre acabávamos nos distraindo com a conversa entre
um beijo e outro, entre as análises
corporais que se fazem. “Seu pé é estranho, seus dedos são muito compridos, os
seus muitos miúdos...” E discutimos sobre o tamanho do nariz, das mãos, a
grossura das pernas, o tamanho dos olhos, o grau dos nossos óculos, entre um
riso e outro.
Disse a ela
que adorava o jeito como ela morava na casa inteira, seu espaço não se
restringia a seu quarto e ao outro quarto onde estudava. Eu me tornei casa dela
porque ela morava em mim inteira. Disse que adorava o jeito como ela deixava o
cabelo cair de lado quando o prendia no alto da cabeça, como era cumprido, como
eu me perdia nele de vez em quando, mas eu adorava.
Ela disse o
quanto gostava do meu estilo, das minhas roupas, dessa imponência tímida e
natural que eu tinha, mas ela detestava o jeito como eu demorava a comer
algumas coisas ou minha lentidão para andar. Ela parecia estar sempre impaciente
e com pressa e eu buscava apreciar cada elemento das paisagens, ver o que
estava diferente desde a última vez em que estivemos naquele lugar. E quando
ela corria na minha frente eu apreciava a caminhada ao observá-la com meus
olhos míopes.
Nossa relação
não teve brigas homéricas, discutimos algumas vezes, mas pedíamos desculpas,
nos beijávamos e tudo estava bem de novo. Eu me expus a ela, disse tudo o que
sentia sem cerimônias, como se fosse a coisa mais simples do mundo, para mim
nunca foi. Ela se permitiu fazer o mesmo.
Cerca de 210
dias se passaram desde que nos conhecemos para encarar um fim brusco. Ambas
famílias conservadoras, caímos numa armadilha do destino, da impotência de não
poder fazer nada. Ainda. Choramos juntas. Tentamos ainda combater isso, parecia
impossível que nos afastássemos voluntariamente. Mas não deu, perdemos essa.
Nos perdemos uma da outra. Aquele dia foi doloroso, os dias que se seguiram
também. Para falar a verdade escrever tudo isso ainda é cruelmente doloroso. Eu
não posso estar com ela por seu eu. Ponto.
Naquele dia eu
me senti derrotada como nunca fui, porque eu sempre tinha força e raiva para revidar,
sempre tinha dentes para morder a mão de quem me bate, mas naquele dia minhas
garras pareciam ter sido arrancadas. Eu era um cordeiro. Meus lobos estavam
completamente feridos, destroçados. Eu não tinha força para ter raiva, parecia
haver um peso tão grande nas minhas costas que fazia minha respiração se tornar difícil, ruidosa.
Ainda assim, juraríamos
que mesmo fisicamente longe continuávamos a ser uma da outra, não como uma
posse ou um bem, nem eu nem ela gostávamos disso, mas como as peças de um
quebra-cabeça que andam por aí, mas vira e mexe sempre se encaixam de novo. Desde
o primeiro encontro ela se encaixou no meu corpo para um abraço e então
descobrimos diversos outros encaixes.
Lá fora chove
torrencialmente, quando chove, nas histórias, significa que haverá reviravolta
na vida dos personagens, eu espero que quem estiver por aí escrevendo essa
história tenha plena consciência disso.