quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Cortando o mal pela cepa

               Incontáveis os números de vezes em que ouvi tal expressão, quem conviveu com pessoas mais velhas com certeza deve ter ouvido e sabe que quer dizer “arrancar o mal pela raiz”.

            Andei pensando bastante nisso, nas raízes das coisas, de onde elas vêm, principalmente os males da desigualdade (social, racial, religiosa) e do machismo especialmente. Quando cruzei uma rua próxima à minha casa para ir até o mercado vi um garotinho loiro de cabelos cacheados, o miúdo devia ter uns dois ou três anos de idade. Ele pediu à mãe para ir ao banheiro, cruzava as pernas, apertado. Ela simplesmente abaixou as calças dele (no meio do canteiro num cruzamento de quatro ruas, movimentadas até) e disse a ele para urinar ali mesmo.

            É uma cena até comum, as próprias mães ensinam os garotos a não se inibirem diante do trânsito de pessoas em qualquer lugar e, como certos velhos hábitos nem sempre morrem, eles se tornam aqueles caras babacas que urinam em qualquer lugar sem se importar com quem passa ou com quem poderia se ofender com a cena. Mas de quem é a culpa?

            Sinceramente? Eu não faço ideia, não sei quem disse que isso era legal, essa coisa de expor a criança, não sei quem disse à mãe que tudo bem ou quem nos avisa que, se nos incomodarmos, basta virar o rosto.

            Como pessoa do sexo feminino, cresci aprendendo a ter medo. Não pegue carona com nenhum homem sozinha (mesmo se for conhecido), ou fique num ambiente fechado com ele, afinal, ele não sabe se controlar, “ele é homem” e isso reduz a pessoa do sexo masculino a um animal afoito pelos próprios instintos enquanto as mulheres se tornam presas, frutos à espera do seu ceifador, pequenas rosas que retraem seus espinhos para serem defloradas e, caladas, pertencerem a ele, mesmo que, por ele “ser homem”, ele não necessariamente precise pertencer a ela, (não no sentido de posse, mas de fidelidade).

            Nós, meninas, moças, mulheres, somos criadas para ter medo por sermos “o sexo frágil”. Inúmeras foram as vezes em que tive que ouvir (e passamos por isso todos os dias) comentários sobre minha capacidade de dirigir um veículo robusto, consertá-lo, me virar sozinha. “Quando você tiver um marido...” Se tivesse dez mãos ainda não contaria as vezes em que revirei os olhos para a objetificação da mulher, do seu corpo e para a depreciação do seu trabalho.

Por experiência própria, as pessoas se surpreendem quando abro a boca para dizer que ocupo um cargo de liderança em algum lugar, mostro meu currículo, dou um aperto de mão “muito firme para uma menina”, demonstro meu interesse técnico por carros e digo que acertei mais mecânica do que legislação na prova do Detran.   

Não só as mulheres, os homens precisam também fazer parte do debate feminista e tolerante, afinal somos todos humanos.

            

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