quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Escrita criativa

    O senhor nos pediu para listar dez acontecimentos e escolher um deles para falar a respeito, como se faz isso? Semana passada eu conheci uma banda nova que temperou a minha vida com um pouco mais de amor por mim, conheci um homem que num aperto de mão me apresentou um novo mundo, vi que uma estrela que há muito eu tentava resgatar com as mãos esfarelou-se no ar e que dentro de mim uma outra se apagou, vi metade do rio de angústia que corria dentro de mim fluir para fora e ser substituído por uma plenitude densa, vi o carinho daquela garota quase se materializar por mim. Então, como eu poderia falar de um desses eventos isolados quando todos eles constroem o que eu sou hoje e me fazem diferente do que eu era semana passada?

domingo, 23 de novembro de 2014

Trilha Sonora da Vida Real

      Adoro o jeito como esses fones de ouvido me transportam para dentro do universo dos filmes que eu assisto. Exatamente a mesma coisa, aquela música deliciosa de fundo, os passos cadenciados, os passantes, uns enamorados aqui e ali transitando e eu dentro daqueles fones, presa numa plenitude, num silêncio, numa felicidade pura que nasce desse moço que diz, com essa voz suave e esses olhos azuis para eu seguir meu coração. Então me imagino dentro de um carro qualquer, dirigindo até a sua casa pra dizer que senti sua falta, que quase morri de saudades, que pode me mandar embora que eu não vou, que vou ficar aqui e dormir na sua porta se for preciso.  Tem as luzes amarelas dos postes que me iluminam pela metade, que incandescem meu coração. Eu olho para baixo e vejo os mesmos pés de sempre no ritmo da música; só que o cadarço está desamarrado, mas não me importo. Adoro ver os desenhos que se formam nas luzes à noite e outro verso me obriga a olhar para as estrelas, aí eu me lembro de você de novo, o moço diz mais uma vez para eu seguir meu coração e a única saída que me resta é estar aqui, dentro de cada uma dessas palavras.

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Rudeza de poesia

Se a vida tivesse sido mais branda, iria querer ser poeta.

Não vejo poesia em rudeza.

Eu vejo. Olhe aquelas mãos calejadas, os olhos sofridos, as rugas de sol, as lágrimas que quase não se deixam ver, que se escondem para poderem se revelar, ouça a música melancólica que ecoa do rádio à pilha e sinta. Feche esses olhos e respire, inspire profundamente e absorva a graça desse ambiente, sinta a poesia dolorosa que desce por sobre as ferramentas, a mesma música que soa no mesmo horário sem faltar uma vez sequer, uma música atrelada a uma fé e uma crença de que dias melhores virão, que o sofrimento um dia se abranda, que as certezas, qualquer dia desses se desfazem e a alma dura será lapidada. Não me venha dizer que aqui não há poesia, você que não enxerga, mas há, em todos os cantos, nas quinas dos móveis, nos repentes e na saciedade do corpo. Eu estou vendo agora que o que há aqui são mais do que pedras, mais do que a rudeza que você vê, isto é só uma casca. Retira a venda que lhe tapa os olhos da alma e enxerga, vê como eu vejo.


Convenceu-me.

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Quando ela se foi

      Quando ela foi embora eu pensei que ia morrer, mas ainda estou aqui, vivo. Mas, por algum tempo eu estive morto, por um bom tempo. Eu andava, me movimentava, mas não tinha vontade, não, eu estava morto. Quando ela se foi, foi exatamente como quando eu quebrei aquele jarro caro da mamãe, eu não sabia o que fazer, estava ali espatifado no chão e eu só sentei e chorei. Chorei até não poder mais, até minhas mandíbulas doerem, meus olhos queimarem e eu estar tão cansado que simplesmente adormeci. Quando ela se foi, a brisa doía, os passos, as flores, o pôr-do-sol. No dia em que ela partiu, meu coração pesou no peito e minhas mãos não suportavam a dor que lhes era oferecida assim. Quando ela se foi eu era um menino, um poeta sonhador, um rapazinho com um par de calças, uns sapatos mais ou menos e meia dúzia de moedas no bolso. Quando ela se foi eu não escrevia como agora. Quando ela se foi eu rasguei tudo o que tinha e me desfiz, me matei ali dentro e me tornei, assim sem querer, um homem, um desgraçado, desses tipos que não valem um tostão furado, um cafajeste, já sabia do coração vagabundo que tinha, mas quando ela se foi ele não via mais razão para alimentar virtudes. Quando ela se foi o que restou foram migalhas, pois o que era meu já não era. Quando ela partiu, naquela madrugada, eu morri.

domingo, 2 de novembro de 2014

Rodriguinho

“E aí, man?”
Virei para ver quem era e vi o Rodriguinho com um cigarrinho pendendo no canto da boca, metido numa calça de couro que sabe lá Deus como foi parar ali.
“Mas que diabo é isso agora, Rodrigo, virou bicha?”
“Que isso, man, deixa de pilha, to na mó vibe aqui. Conheci umas mina que disseram que isso era o que tava na moda agora.” – abriu a jaqueta e girou feito malandro pra eu ver a roupa inteira. Rodriguinho  falava com um sotaque afetado, puxando os esses e demorando nas vogais.
“Moda? Pra mim isso é coisa de viado e pronto, olha essas calças, pelamor, Rodrigo. Até o sotaque tu afeta.”
 “Colé irmão, ta dando uma de moralista agora? Tu nunca foi dessa.”
“Moralista não, sou macho.”
“Um puto moralista e homofóbico, é o que tu é, man.”
“Meu Deus, Rodrigo, desde quando tu é viado?”
“Relaxa aí, Brô, que o que eu faço é cultuar o amor e não o falso moralismo, deixa de treta e vem comigo que te mostro umas gatas.”
   Relutei, mas acabei indo.
“Que diabo é isso aqui, Rodrigo? Tamo no Woodstock?”
“Ah, man, bem que a gente queria, mas não tem a Janis nem o Jimmy, aí é foda, mas a gente coloca os discos, pô. Toca que é uma beleza e os cara se amarram.”
“Ai meu pai, minha vó que tava certa, esse mundo tá perdido mesmo.”