Quando ela foi embora eu pensei que ia morrer, mas ainda
estou aqui, vivo. Mas, por algum tempo eu estive morto, por um bom tempo. Eu
andava, me movimentava, mas não tinha vontade, não, eu estava morto. Quando ela
se foi, foi exatamente como quando eu quebrei aquele jarro caro da mamãe, eu
não sabia o que fazer, estava ali espatifado no chão e eu só sentei e chorei.
Chorei até não poder mais, até minhas mandíbulas doerem, meus olhos queimarem e
eu estar tão cansado que simplesmente adormeci. Quando ela se foi, a brisa
doía, os passos, as flores, o pôr-do-sol. No dia em que ela partiu, meu coração
pesou no peito e minhas mãos não suportavam a dor que lhes era oferecida assim.
Quando ela se foi eu era um menino, um poeta sonhador, um rapazinho com um par
de calças, uns sapatos mais ou menos e meia dúzia de moedas no bolso. Quando
ela se foi eu não escrevia como agora. Quando ela se foi eu rasguei tudo o que
tinha e me desfiz, me matei ali dentro e me tornei, assim sem querer, um homem,
um desgraçado, desses tipos que não valem um tostão furado, um cafajeste, já
sabia do coração vagabundo que tinha, mas quando ela se foi ele não via mais
razão para alimentar virtudes. Quando ela se foi o que restou foram migalhas,
pois o que era meu já não era. Quando ela partiu, naquela madrugada, eu morri.
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