segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Rudeza de poesia

Se a vida tivesse sido mais branda, iria querer ser poeta.

Não vejo poesia em rudeza.

Eu vejo. Olhe aquelas mãos calejadas, os olhos sofridos, as rugas de sol, as lágrimas que quase não se deixam ver, que se escondem para poderem se revelar, ouça a música melancólica que ecoa do rádio à pilha e sinta. Feche esses olhos e respire, inspire profundamente e absorva a graça desse ambiente, sinta a poesia dolorosa que desce por sobre as ferramentas, a mesma música que soa no mesmo horário sem faltar uma vez sequer, uma música atrelada a uma fé e uma crença de que dias melhores virão, que o sofrimento um dia se abranda, que as certezas, qualquer dia desses se desfazem e a alma dura será lapidada. Não me venha dizer que aqui não há poesia, você que não enxerga, mas há, em todos os cantos, nas quinas dos móveis, nos repentes e na saciedade do corpo. Eu estou vendo agora que o que há aqui são mais do que pedras, mais do que a rudeza que você vê, isto é só uma casca. Retira a venda que lhe tapa os olhos da alma e enxerga, vê como eu vejo.


Convenceu-me.

Nenhum comentário:

Postar um comentário