terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Se sou fogo

     Talvez num outro dia eu pedisse para ser um dos botões da tua camisa, um fiapo da tua blusa de seda, a barra da tua calça, um anel no teu dedo, um brinco na tua orelha, teu batom. Mas agora não é suficiente. A fome que me toma nesse instante é maior, mais violenta e voraz do que a minha sede de antes, juraria qualquer coisa, mas sem perceber me despi dos meus preconceitos e dos meus princípios. Não é mais teu corpo e não será, não me sacio e das vezes em que a água do teu ser aplacou meu fogo era irreal. Não desconstruo com falsos moralismos tudo o que houve, nem é real o que digo acima, é só bonito. Desta maneira desando a falar e sem mais falar meu corpo jorra da incerteza de ter sido substituído por uma confiança que não sei aonde encontrei, mas jaz aqui. Qualquer semelhança comigo de antes é mera coincidência, inconveniência mesmo da vida que há muito fora deixada. Vê por minhas palavras que são o que há de mais puro em mim, de mais bruto. Pois se sou rocha não falho, não caio por terra e não desato a cometer essas gafes que pouco me tocam. Se sou água, desvio e deságuo, banho teus corpos desnudos, me escondo e vejo por todas as frestas. Se sou fogo apenas ardo na urgência do meu comburente.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Sol de sábado

             Minha garganta estava seca, era um desses dias de sol, parecia sábado, um calor infernal e eu estava andando, procurando. "Aí não, tem gente demais." E nada discretamente me virei e voltei pelo mesmo caminho que vinha. Nunca gostei mesmo de multidão, todos aqueles estranhos, nunca foi meu forte, continuei andando, parei, pedi informação e andei mais um pouco. "Deus, que calor." Eu puxava a gola da minha camiseta tentando fazer entrar um pouco de ar, não adiantava. Uma garota achou que eu a estava seguindo, não estava, eu estava procurando, sem querer achar, mas estava.
            Meu coração estava acelerado, parei e bebi água, respirei fundo, molhei as mãos e continuei. A copa das árvores balançava, mas o vento era quente também. Não quis olhar para os lados e não olhei. Dobrei a esquina e dei de cara com ela, minha garganta secou de novo, minhas mãos suaram, engoli seco sem saber o que dizer, ajeitei os óculos na tentativa de desviar o olhar, mas ela sabia, sorriu e meus olhos não me obedeceram mais. Ela se virou e eu arrumei o cabelo, estava enfeitiçado, dei um sorriso meio torto e idiota e ela riu de novo. Suei em bicas, minha respiração estava acelerada. "Vou desmaiar, como pode? Seja homem, não trema." Era inútil, não conseguia nem falar.
         

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Theodore

Theodore era um rapazinho incapaz de amar, vez por outra taxado de sem coração.  Ele era egoísta, imaturo e despreparado, não sabia lidar com as pessoas mesmo. Num desses dias abastados da solidão que o atormentava e que, por pura incompetência ou apego, não se sabe, ele decidia manter – e alimentar –, ele encontrou alguém. Uma pessoa tão maravilhosa, meiga, que ouvia os mesmos discos, assistia aos mesmos filmes que ele. “Teremos muito o que conversar”, ele pensou.
         A convivência era ótima, eu me arriscaria seriamente a dizer que era perfeita. Essa pessoa sempre o acompanhava independentemente de tudo o que acontecia, apoiava e participava de absolutamente tudo na vida de Theodore, a conexão que existia parecia irreal. Até que não havia mais nada de novo, tudo se tornou monótono e repetitivo. Qual não foi a surpresa de Theo quando tiveram a primeira discussão e, num acesso descontrolado de raiva ele acabou por quebrar o espelho no qual essa tal pessoa residia.

         Imagine quão frustrado Theodore não ficou ao perceber que nem ele mesmo se suportava mais.