domingo, 22 de março de 2015

A feiticeira do vento

Venho aqui esta noite para lhes contar a história da Velha Bruxa Notívaga. A acompanhei numa viagem curta, uma hora no máximo. Por pura distração, não a havia notado bem, parecia uma pessoa como qualquer outra que viajava. Olhava as luzes, os carros na direção oposta, os transeuntes.
Quando por fim decidi prestar atenção a ela, reparei no brilho infantil de seus olhos, como quem avista o mundo pela primeira vez, com os olhos imersos num fascínio que não se descreve. As maçãs do rosto negro estavam completamente destacadas, enquanto as rugas que lhe cobriam a face levemente se movimentavam.
“Vá, que o vento o leve.” Ela sussurrava, mas demorei um pouco a entender. Com um sorriso e a boca mais próxima à janela, ela ia sussurrando coisas que eu não conseguia ouvir num fervor, num tom de oração que me comovia.
“Venha, que o vento te traga.” Sussurrou e eu percebi.
Da mesma maneira que estive antes frente ao mar pedindo às ondas que levassem e afogassem o meu algoz para me trazer meu salvador, ela orava. Como eu orei desesperadamente esperando que o meu espírito fosse lavado. Como o vento que me dizia, silvando qualquer coisa que me tirou do chão, ela não parou.

Num minuto, senti a intensidade daqueles pedidos, tão afoitos quanto os meus. E, por fim, quando as luzes se apagaram, nós duas sabíamos, internamente, num lugar profundo, que qualquer oração, feita ao mar, ao vento, ao sol ou à lua, nunca, de maneira alguma, era em vão.

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