Venho aqui esta noite para lhes contar a história
da Velha Bruxa Notívaga. A acompanhei numa viagem curta, uma hora no máximo.
Por pura distração, não a havia notado bem, parecia uma pessoa como qualquer
outra que viajava. Olhava as luzes, os carros na direção oposta, os
transeuntes.
Quando por fim decidi prestar atenção a ela,
reparei no brilho infantil de seus olhos, como quem avista o mundo pela
primeira vez, com os olhos imersos num fascínio que não se descreve. As maçãs
do rosto negro estavam completamente destacadas, enquanto as rugas que lhe
cobriam a face levemente se movimentavam.
“Vá, que o vento o leve.” Ela sussurrava, mas
demorei um pouco a entender. Com um sorriso e a boca mais próxima à janela, ela
ia sussurrando coisas que eu não conseguia ouvir num fervor, num tom de oração
que me comovia.
“Venha, que o vento te traga.” Sussurrou e eu
percebi.
Da mesma maneira que estive antes frente ao mar
pedindo às ondas que levassem e afogassem o meu algoz para me trazer meu
salvador, ela orava. Como eu orei desesperadamente esperando que o meu espírito
fosse lavado. Como o vento que me dizia, silvando qualquer coisa que me tirou
do chão, ela não parou.
Num minuto, senti a intensidade daqueles pedidos,
tão afoitos quanto os meus. E, por fim, quando as luzes se apagaram, nós duas
sabíamos, internamente, num lugar profundo, que qualquer oração, feita ao mar,
ao vento, ao sol ou à lua, nunca, de maneira alguma, era em vão.
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