Eu já havia me acostumado, todos os
meses eram iguais, ela explodia feito uma louca. Ao menos uma vez. Nas
primeiras, eu me vi completamente desesperado, achando que ela iria embora para
nunca mais voltar. Parei de pentear os cabelos procurando uma solução para
apagar o fogo que ardia no meu peito. E uma semana depois, com a cara lavada,
ela apareceu. Por um ou dois segundos, meu orgulho me disse que deveria
ignorá-la e assim o fiz, mas sabia que era por puro charme, quando ela voltou o
olhar para mim, não resisti a um beijo e a um abraço apertado. Eu pensei que
poderia tê-la perdido.
Ocasionalmente, aqueles ataques de
fúria e indiferença me faziam querer desistir de tudo, mas eu sabia que ninguém
me preencheria daquele jeito, que não completariam meu corpo e que sua fúria se
casava silenciosamente com a minha calmaria. Decidi parar de pensar essas
coisas e me entregar ao mar turbulento que ela era. Eu era o barco, uma canoa
simples desafiada a navegar daquele jeito.
Vez ou outra me pegava rindo sozinho,
bagunçando meu próprio cabelo do jeito como ela fazia, não acreditava que
poderia ter sido eu o escolhido, eu que era tão indiferente e calmo, que nada
tinha que me fizesse sair do chão. Logo eu estava ali, acorrentado a ela como
um animal à sua jaula e era dessa maneira que eu sabia que era real. Quanto
mais ela brigava, mais meu amor por ela crescia. Metade dos meus amigos achava
que eu tinha enlouquecido por estar com ela “mesmo depois de tudo”, como eles
mesmos diziam. Mas eles não sabiam de nada, eles nunca sabem.
Eles não sabiam que eu encontrei meu
lar dentro daquela turbulência, que ela era o único lugar de onde eu não tinha
vontade de ir embora, que vez ou outra eu me descabelava, eu tinha um medo
absurdo e isso me tornava humano e frágil e ser humano me tornava melhor. Eles
achavam que ela estava me matando, mas, com todo aquele caos e turbulência, ela
estava apenas me tirando do marasmo, me dando vida.
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