Estou suando em pleno verão, sentada numa cadeira de praia no meio da minha cozinha. Meu café esfriou demais e eu fito as paredes procurando o que dizer, o que sentir. Primeiro eu me apaixonei pelo vincozinho que ela tem e liga o septo ao lábio superior, depois me apaixonei pelas formas como ela me seduzia, depois pela maneira de relatar as histórias do seu cotidiano a mim. Ter uma cadeira de praia na cozinha dá inspiração suficiente. Eu poderia até fumar um cigarro, mas não sou adepta a essa modalidade de embriaguez. Estava até lembrando das músicas da Amy Winehouse quando pensei “que bad” e prossegui lavando a louça do jantar. O lugar dela na mesa estava vazio, o prato dela não estava mais lá. Nem os talheres e a xícara. Olhei em volta e ela não estava mais lá. Eu preciso dizer que me apaixonei pelos olhos e pelo sorriso assim quando sorria pra mim e quando eu era causa daquele movimento súbito dos lábios que me beijavam a boca e dos dentes que me mordiam nos lugares mais inapropriados. Era o jeito dela de dizer que eu era sua e eu adorava. Eu a adorei enquanto ela morava em mim e nos dias em que alugou só um quarto, ficou alguns dias e foi embora. Quando voltou eu ainda a adorava e o quarto vivia arrumado da mesma maneira que ela havia deixado. Esses dias ela pediu as contas, disse que era hora, foi-se embora assim. Eu também estava cansada, deixei-a ir. Desarrumei o quarto inteiro, de cima a baixo, não deixei um grão de poeira que era dela. Coloquei o café na xícara e ele esfriou. Não à toa repouso nessa cadeira. Quando se fracassa se faz coisas que nem se pode explicar. Mas eu não fracassei. Eu lutei dia após dia, não foi suficiente. Cruzo as pernas e me embebo num ar blasé enquanto seguro meu café frio e meu cigarro imaginário entre os dedos. As tragadas que sopram meus pulmões não são assim intensas como o vidro de perfume que ela deixou pra trás, então não me dou ao trabalho de fumar, mas respiro. Respiro profundamente enquanto repouso na cadeira de praia da minha cozinha e as músicas da Amy ressoam ao fundo.
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