segunda-feira, 1 de maio de 2017

Naufrágio

Nos primeiros dias eu me permitia mergulhar sem medo, meus pés ainda tocavam o fundo e minha cabeça estava suficientemente acima da água para que eu pudesse respirar tranquilamente. À medida em que o tempo se passou então eu me permiti nadar em águas mais profundas e fui aos poucos descobrindo que eu conseguia me manter,  eu estava me descobrindo ali também. Mas em certo momento minhas pernas começaram a falhar, meus músculos já não respondiam e eu já não conseguia respirar com a mesma agilidade. A água começou a invadir meu corpo, minhas narinas começaram a arder e meus pulmões se comprimiam com a pressão. Eu não conseguia mais voltar à superfície,  foi aí que eu comecei a afundar, foi assim que eu descobri qual era a sensação de me afogar. Eu nunca fui exímia nadadora, e ela era o mar inteiro.  Havia dias em que a tormenta tomava conta daquele mar e eu naufragava, e nadava sofregamente pronta a me agarrar a qualquer destroço que fosse. Não havia destroços,  não havia nada que pudesse me tirar dali além dela, mas quando reparei de novo, ela não estava mais lá. Foi assim que eu percebi que amar é poder nadar nas águas do outro sem se afogar

Sinapses

Quando a pele dela tocava a minha, meus pêlos se eriçavam para ficarem mais próximos ao corpo dela. Quando via a boca, meus olhos se enchiam e mandavam estímulos para a boca, que se repuxava para cima. A tez corava, relaxada pela presença daquela moça miúda. Quando sentia o cheiro, os pulmões se abriam com mais facilidade para poder absorver o perfume dela. Quando começava a sentir seu sabor, o paladar apurava buscando as oscilações, degustando o prazer. Quando a pele tocava, o coração batia com mais força, compassado com o dela. Quando os seios se tocavam, a respiração surda virava um gemido discreto, sibilado no escuro dos olhos fechados. Quando os dentes tocavam a pele, a dor não era dor, ou era prazerosa. Quando os dedos dela roçavam pelo meu corpo, minha pele reconhecia e se entregava de corpo. Quando dentro dos olhos dela eu me reconhecia, então minha alma que se entregava. A rendição nunca foi tão facilitada pelas sinapses do meu corpo quanto naqueles dias em que ela se deixou residir em mim. Nos outros, meu corpo se resguardava como muralha, poeira, pedra, terra. Inerte. Foi ela chegar e todas as funções se vincularam numa sinestesia inexplicada, todos os sentidos se excitaram para apreendê-la por completo. Cada pedaço, cada centímetro do tecido que revestia meu corpo se preocupava em revestir cada parte minúscula do corpo dela.

Despedidas

Coloquei as minhas roupas dobradas sobre a cama e organizei minuciosamente as coisas para o dia em que a veria para uma conversa, para outro dos diversos adeus que já tínhamos proferido uma à outra. Fiz questão de separar um par de meias iguais (eu tenho dificuldade de encontrar minhas meias às vezes) e reservei ali num cantinho da gaveta para a ocasião.
Engomei umas duas camisetas para estar impecável e ter opção de escolha para o dia. Lavei meus tênis e coloquei em cada um deles o peso dos pés que me arrastariam até aquela ocasião. Guardei nos meus bolsos da frente um sem tamanho de anotações, e nos bolsos das calças só como lembrete mesmo. Enfiei um isqueiro onde estaria o bolso da minha camisa e um cigarro imaginário cuidadosamente posto nas minhas coisas para fumar dramaticamente depois com um pé em cima do banco e outro pendendo, como nas cenas de filmes de romance baratos.
Levei meus óculos escuros para esconder a incerteza que carregava nos meus olhos e maquiar o desejo que eles ainda possuíam pela dona da voz que me falaria. Escolhi a playlist que eu achei que me distrairia, numa tentativa inútil de me transportar a um lugar onde meu coração não palpitasse.
 Escolhi tudo em seus mínimos detalhes para causar uma última boa impressão, como da primeira vez e em todas as outras. Eu estava sempre reparando nos detalhes prévios e posteriores. Sempre construindo discursos que se esfacelavam com a emoção, arrumando as mangas que se desfaziam amassadas pelo nervosismo e dos botões que ela arrancava da minha roupa quando o desejo e a saudade eram mais intensos do que todas as outras coisas em que pensávamos. E quando o corpo dela jazia sobre o meu, eu só conseguia agradecer por, depois de tanto tempo reparando em tudo, ela ter me bagunçado inteira.