Engomei umas duas camisetas para estar impecável e ter opção de escolha para o dia. Lavei meus tênis e coloquei em cada um deles o peso dos pés que me arrastariam até aquela ocasião. Guardei nos meus bolsos da frente um sem tamanho de anotações, e nos bolsos das calças só como lembrete mesmo. Enfiei um isqueiro onde estaria o bolso da minha camisa e um cigarro imaginário cuidadosamente posto nas minhas coisas para fumar dramaticamente depois com um pé em cima do banco e outro pendendo, como nas cenas de filmes de romance baratos.
Levei meus óculos escuros para esconder a incerteza que carregava nos meus olhos e maquiar o desejo que eles ainda possuíam pela dona da voz que me falaria. Escolhi a playlist que eu achei que me distrairia, numa tentativa inútil de me transportar a um lugar onde meu coração não palpitasse.
Escolhi tudo em seus mínimos detalhes para causar uma última boa impressão, como da primeira vez e em todas as outras. Eu estava sempre reparando nos detalhes prévios e posteriores. Sempre construindo discursos que se esfacelavam com a emoção, arrumando as mangas que se desfaziam amassadas pelo nervosismo e dos botões que ela arrancava da minha roupa quando o desejo e a saudade eram mais intensos do que todas as outras coisas em que pensávamos. E quando o corpo dela jazia sobre o meu, eu só conseguia agradecer por, depois de tanto tempo reparando em tudo, ela ter me bagunçado inteira.
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