segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

Desejo


Minha pele sempre queima. Meus olhos tateiam, míopes, pela escuridão da sua ausência. Você nunca está aqui, mas sempre está. Eu tateio o desespero que se desenha ávido nas minhas escápulas e se instala nos meus pulmões. Eu vejo pelo espaldar das cadeiras nas quais me recosto. 

Por que, naquele dia, você me olhou de volta? Por que deixou que seus olhos resvalassem nos meus e por que me quis por perto? Eu queimo, toda vez eu queimo e ardo pela secura do desejo, da luxúria e da lascívia que me consome. E quanto mais penso, mais combustível há. Quanto mais te procuro, quanto mais me afasto. 

Eu não a desejo como desejo a diversas, inúmeras outras. Meu desejo esse é mais intenso, concentrado, permanente. Quando penso que ele se foi, me pego deslizando por entre as curvas do seu sorriso e querendo deslizar por outras tantas mais abaixo. Quando penso, queimo, embebida no combustível que vive em mim, que jorra de mim. Toda vez que penso, queimo.

segunda-feira, 23 de abril de 2018

Ardência


Eu a desejo. Esse desejo arde em mim enquanto olho furtivamente para o espaço entre suas coxas, para as curvas que se desenham nas partes que a roupa não cobre. Eu a desejo e esse desejo dói dentro de mim, queima meu estômago e a sensação se assemelha àquela de quem não se alimenta há dias. Quando os meus músculos se enrijecem e a força triplica, é pela força do desejo que vai queimando minha carne, consumindo meus pensamentos como folhas de papel embebidas em álcool para então pararem por entre as curvas do colo dela, por entre o espaço que há entre a orelha e o maxilar, aparentemente perfeito para que eu possa sorver o prazer e dá-lo a ela em dobro. Quando suas mãos me seguram, meu corpo queima. Queima com o ardor de mil fogueiras e a selvageria do meu instinto se manifesta me deixando sem ar. Meus olhos procuram por ela, minhas mãos procuram por ela, minha boca procura por ela, sedenta. A sede se aplaca com a água que escorre dela para meus lábios secos. Meu coração martela as costelas intensamente, martela os músculos em volta, aperta meus pulmões, que sofrem pelo ar que se torna escasso, faz meu sangue correr, voar pelas minhas veias quentes, aumenta minha temperatura e ela, o sabor dela, dilata minhas pupilas, relaxa a tensão do meu corpo teso e alivia o peso da minha respiração curta, ofegante. A força que o meu corpo possui é ínfima se comparada à força com a qual a desejo, com a qual a envolvo em meus braços. A força lasciva que meu corpo expõe é tão pouca perto dos olhos que a devoram, da boca que seca na intenção do desejo pelo calmo percurso do seu corpo, das mãos que, em garras, procuram com ferocidade a quentura do seu corpo, que buscam nele uma força equivalente que me pare, que me sacie, que me acalme.

terça-feira, 24 de outubro de 2017

Luz de dentro

      Quando as luzes de dentro se apagam é possível perceber todos os pontos de luz exteriores. Onde brilha, onde não brilha, onde é amarelo e onde a luz trêmula fica azulada. Mas o escuro do interior me amedronta no momento em que a minha visão turva me leva a ver coisas que eu não veria na luz. Não seria ao contrário? Não devia ser? 

      Quando a luz de dentro então se acende, meus olhos se tornam cegos para aquilo o que está além de mim. Raras luzes, alaranjadas, transpassam a película opaca de luz branca do interior. Pontos específicos com sentidos e significados específicos. 

      Nunca sei das horas em que elas se apagam, nem quando ou se o farão, mas aguardo enquanto fito o horizonte envolto em breu. Não vejo um palmo à minha frente. Não aqui dentro, lá fora. Aqui eu vejo, mas anseio por enxergar longe, anseio por ver aquilo o que a luz pálida encobre. 

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Primeira vez



          Foi a primeira vez. A primeira vez que os lábios daquela moça se encontraram com os meus daquele modo, que o corpo dela pairava sob o meu, envolto na penumbra que escondia a formosura e as curvas. A primeira vez em que a visão e todos os acontecimentos juntos se sobrepuseram ao meu poder descritivo, eu não sabia por onde começar. Não acreditei no que aqueles olhos baixos e tímidos me escondiam. E quando já desnuda, seu corpo parecia se alongar, em busca de prolongar o prazer, as formas que minha boca tateava no escuro eram vagarosamente saborosas. 

         Quando a luz penetrava o cômodo e o corpo se retorcia, eu via as formas que se interpunham entre minha boca e a dela. As montanhas das costelas faziam nítidos os vales que lhe desciam pelo abdômen até a depressão do umbigo e o prazer daquela moça então desaguava na minha boca, sedenta. As mãos dela me tateavam para me levar mais para perto, um pouco mais, mais, até atravessar todo o caminho. Até o corpo quente e as mãos firmes se derreterem na minha boca, boca essa que encontrou a boca dela em seguida. Não sei quando, em que momento, no escuro não havia horas, não se via a lua. 

        Já ao amanhecer, enquanto a luz do sol penetrava preguiçosamente o recinto, a sombra dos nossos lábios se encontrava delicadamente no colchão enquanto os substantivos se uniam para formar uma oração meio arfada. Quando busquei naquele momento descrever, não o soube e provavelmente não o sei agora. Mas era mais que poesia, humildemente recorri à minha biblioteca mental mas não tive a pretensão de saber. Me perguntei, junto à minha racionalidade, se aquele era o mesmo corpo que eu tinha encontrado inúmeras vezes, provavelmente também não era o meu o mesmo. Também isso não sei. Mas sei que sinto falta daquele corpo próximo ao meu, daquele cheiro me penetrando e inconscientemente me levando a um estado de maciez no espírito, de leveza, das histórias contadas de manhã cedo, do sorriso leve tão próximo e tão nítido aos meus olhos míopes, das curvas do nariz, dos traços do pescoço, das clavículas e dos demais desenhos que me fizeram contemplar seu corpo.

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

Apatia

        Nenhum dia era igual. Dentro da luz azulada que emanava da minha apatia eu me arrastava pelos dias, me arrasto. Quando eu sou a terceira pessoa tentando escrever uma história que talvez não seja minha. Mas é isso o que os escritores fazem, e as escritoras. Eles se apropriam de histórias que não são deles, de corpos que não o são, de desejos que não lhes pertencem. Quando a playlist tocava, repetidas vezes, as músicas que ela havia me dito que gostava, eu pensei na peculiaridade daquele gosto, daqueles arranjos, da voz que conduzia aquelas músicas, tão grave quanto a ânsia que ardia em mim e que desejava conduzir aquele corpo que não era necessariamente meu, que talvez não passasse de idealização.

          Mas nada é ideal. Nada que transpassa as veias da humanidade é ideal. Não as coisas que atravessam o desejo do corpo e o crepitar da alma, o desejo inflamado e descontrolado. Pelas minhas contas, se passaram cerca de vinte e sete dias, como os vinte e sete anos da Amy, de um ocaso previsto já e adiado pela crença em algo que também não era meu. Não era para ser. 

             Cerca de vinte e dois minutos depois e três músicas nas quais prestei atenção, meu ombro direito dói e meu corpo se esvazia por conta do desejo de algo que não me pertence. A pertença então é complexa no sentido de assenhorear. Não dá para ser senhor de si própria, imagine... Mas a fome não deixa de possuir meu corpo e a visão dela não deixa de umedecer meus pensamentos.

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Carta aberta a um coração partido

        Venho, por meio desta, registrar algumas coisas que eu não te disse. Não fiz questão de dizer, talvez para não te pressionar por meio das minhas expectativas em nós duas. Mas todas as vezes em que eu te via me esperando naquele corredor, minha mente viajava paralelamente ao dia em que nos uniríamos oficialmente. E quando eu avistava o seu sorriso, o meu se retorcia dentro de mim, ansiando pelos seus lábios, pela proximidade dos corpos e do enlace num abraço apertado.
           Talvez eu não tenha dito também por não saber como seriam recebidas minhas palavras, não saberei então. Talvez eu tenha sido covarde demais e eu não me culpo, ou a você, mas dizer que a situação é complicada e repetir isso como um mantra também não ia fazer a gente aguentar melhor o tranco. Ontem à noite eu visualizei seu corpo desnudo banhado pela luz que entra pela janela do meu quarto, e na penumbra visualizei as constelações do seu corpo, das suas pernas, das suas costas, dos seus seios. 
            Quando minha mente febril passeou pelo seu corpo, seu toque não passava de um delírio incoerente e de frases balbuciadas lenta e desesperadamente. As minhas sensações ainda eram suas, das suas mãos pequenas e dos seus lábios finos, macios, nos meus machucados. Quando o suor do meu corpo grudou nos lençóis, a sua imagem já tinha se esvaído e eu lutava para não me afogar numa lagoa que encontrei pelo meio do caminho, enquanto o onirismo se confundia com a realidade, enquanto, em meus sonhos armavam planos mirabolantes para a derrubada de grandes governos, minha vida se encontrava desgovernada. 
                 Agora pouco diferem palavras da situação, a dor não se desloca, não se apaga nem em sonhos, sua ausência é quase insuportável, não pensei que fosse ser assim, mas da última vez que eu senti um corte na minha pele e o sangue jorrava torrencialmente, tudo era um pouco menos doloroso. Venho também me retratar pelos dias de discussões inúteis e mesquinhas, pelos mal-entendidos, que não foram poucos e por todas as coisas que eu não percebi por conta da minha visão falha e percepção limitada. 

quinta-feira, 29 de junho de 2017

Sensações

Já se sentiu como um jovem deus? Como se o poder estivesse a fluir de dentro para fora, das pontas dos dedos para as folhas das árvores, das solas dos pés para o chão. E depois, num ato retributo, o caminho reverso fosse feito. Quando o sangue das árvores começa a correr nas suas veias e a fusão é una. Já sentiu como se quisesse dominar e conhecer a si próprio? Conhece-te. Mas, digo, não será possível conhecer ao outro. E quando pensares que te comunicas, tudo se torna cinza. Quando pensares que as coisas vão bem, pois, vão, ou diga que não. Mas quem não conhece a si nunca terá a chance de tentar conhecer ao outro.

A primeira questão é se permitir, a segunda, o tato. Não tocas na pele sensível com garras ou mãos de ferro, não tocas na garganta com presas, ou matas. Não tocas os seios sem delicadeza pois a pele reconhece o toque e às vezes ele arde. A pele também reconhece a terra que dorme debaixo das solas dos pés e nas pontas dos dedos.

O corpo apreende como um canal, um punhado de carne e estrutura óssea que serve a um propósito maior, a fingir que abriga a gama de emoções que cabem num único órgão, tão miúdo quanto um punho fechado. O corpo que se fecha nas sensações mais primordiais de necessidade, de precisão. Do paladar que se descobre ao apreender os sabores de outro corpo. De se privar de todas as sensações e enlouquecer.