terça-feira, 24 de junho de 2014

Adeus, minha rainha



       Ai meu bem, tenho andado cansado, então ignore as bobagens que eu tinha dito. O que rasgo de mim o faço em silêncio. Perdoe minha loucura e meus maus modos, não está sendo fácil, sei que pra você também não. Mas é a vida, minha menina, nos ensina a crescer. E quando eu for grande, quero novamente estar ao seu lado. Tenho saudades de chamá-la de meu amor, de repetir e rir comigo dizendo que é minha. Perdoe-me por expor meu sofrimento, mas preciso pôr pra fora o veneno que me incendeia. Rasgo-me em dois ao pensar que você pode estar em braços que não são meus, quase me mato e na minha fúria odeio todas as circunstâncias com tanta ou mais força que a desejo. E por não mais que cinco minutos finjo indiferença. Se houvesse então outro homem, gostaria de quebrar-lhe os ossos um a um, de dentro da minha raiva quase gritar. Mas a você não odeio, não me entenda mal, preciso acostumar-me aos fatos, digo, preciso esquecer os beijos, o cheiro e me ocupar com outras coisas. Quando viajar, mando-lhe cartões-postais de todos os lugares por onde passar.
        
                                                                                                                 (Marvolo Debram)

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Desesperança



          Eu estava deitado com a cabeça em seu ventre, ela fazia mil planos e eu estava ali parado ouvindo a vida que pulsava. Eu estava assustado, sem saber o que fazer, completamente desnorteado. Eu não havia planejado nada daquilo e pretendo ir embora. Pode dizer que sou um canalha, pode achar isso, mas não sou. Ao menos não seria com ela. Ela não parava de falar e eu concordava com tudo, mas meu pensamento estava inteiro dentro de seu ventre. Ela achava que talvez nosso amor pudesse nascer com aquele embrião. Mas eu não a amava e de dez minutos para cá nada havia mudado.
         Ela não teria feito isso se tivesse consciência do que carrega dentro de si, de quanto riso e quanta lágrima lhe cabe, de quantas vezes o coração inteiro será partido e endurecerá para enfim acabar-se num suicídio surdo, silenciado, ela não faria. Mas não sabe.
           Não lhe digo que seja inocência, desaviso, não sei se é. Mas é esperança que essa menina carrega sem saber se vinga. A esperança de uma mulher pode alimentar uma vida cheia de desesperança. De dois dedos de conhaque misturado com whisky barato e barbitúricos, sem gelo por favor. Sabe-se lá aonde isso vai parar.
           Decidi sair para fumar um pouco, ver se as ideias clareavam. Estava escuro e frio, mais do que o normal. Quando dei por mim os faróis tinham acendido e eu não havia percebido que estava bem no meio da rua. O vento apagou meu cigarro, devo ter perdido o isqueiro no breu. Bem, ao menos aqueles pensamentos me deixaram em paz. 
     
                                                                                                                               (Marvolo Debram)

              Posto que despedia-me de mim, via no céu azul o escuro que brotava das estrelas, posto que não acreditava mais na inocência que havia havido há não sei quanto tempo aqui, dissipava-se algo que eu trazia e deixava e escorria de dentro o veneno que queimava a boca que o bebia. Ah, que boca.  

Eu e Julieta



   

         Adorava a maneira como ela se jogava lânguida nos meus braços, sempre da mesma maneira, fazendo charminho. E sempre fazia exatamente a mesma coisa, o que era bem entediante às vezes. Julieta era uma menina loirinha, magricela, de olhos muito azuis, eram quase duas pedrinhas de lápis-lazúli, tinha traços bem comuns até. Bochechas pouco arredondadas, nariz médio, boca pequena, não sei o que me atraia, Julieta era até bem sem graça, talvez fosse isso. Era só uma menina comum que sonhava viver um grande amor, que esperava que um terrível drama acometesse o casal para depois serem felizes para sempre.
            Eu? Bem, eu era só um garoto que a achava fascinante, embora pouco atrativa no que se dizatributos físicos. Ela me contava tudo o que sonhava em ter e fazer e eu era apenas o plebeu que a distraia enquanto seu príncipe polia as ferraduras do seu cavalo branco. E satisfazia todas as suas fantasias por hora, fingia drama, tanto quanto ela pudesse aguentar só para deixá-la mais feliz.
             Então um dia apareceu um tal Romeu não sei das quantas, mais velho, rico, de olhos castanhos, porte médio, cabelos estranhamente aparados, mas era um bom partido por assim dizer. Logo Senhor Capuleto, que andava com os negócios mal das pernas, tratou de arranjar seu casamento com Julieta. Romeu a olhava com volúpia embora a pequena e inocente Julieta ainda estivesse aflorando.
            Ela agora andava a suspirar pelos cantos, indisposta e ansiosa, embora faltasse pouco tempo para o casamento. Já não me dava atenção e quando falava comigo perguntava por ele. Diziam que o que tinha eram coisas de moça. Julieta tinha seus 15 anos, Romeu 26 e eu apenas 17. Nas duas ou três vezes que foi vê-la estava em seu vistoso cavalo branco a pedido do Senhor Capuleto, afinal não era segredo para ninguém as fantasias de Julieta. Eu sentia como se todos estivessem mentindo pra ela.
            Casaram-se e não tenho mais sabido deles, interessei-me pela ama de Julieta, não havia reparado nela antes do casamento. Bela, morena, olhos pretos, cabelos negros abaixo do ombro, interessou-se também por este jovem plebeu.

sexta-feira, 13 de junho de 2014

O meio, o fim e o início

      Faz 30 anos desde a primeira vez em que a vi, era pra ser pra sempre minha. Era pra ser. É domingo, já passam das dez, tem um copo de pinga meio vazio no chão e uma carteira de cigarros amassada. Cortaram a luz ontem e eu estaria no escuro se não fosse a janela quebrada. Estou ultrapassado, minha máquina de escrever está se deteriorando, mas foi um presente dela e não poderia me desfazer dele. Só tenho mais uma ou duas folhas meio amassadas.
      Todos os meus amigos morreram de overdose, todos eles. Um a um e eu sempre pensava que aquele seria o último até que só restou a mim. Eu sou o último. O que eles dizem sobre mim e sobre você que se interessa em me ler é o seguinte: somos desocupados e sonhadores, drogados e vagabundos, isso não é trabalho de gente de verdade. Nunca soube se uma pessoa de verdade tem coração, pois há muito sou de mentira.
        Já não falo mais pois não há o que falar e minha boca vive amarga. Dor amarga a alma e as palavras. Se houvesse luz, meu rádio estaria tocando as mesmas músicas dos anos 60. Eles nos olham com pena, mas acham nossa dor bonita, acham bonita a maneira como nos rasgamos e escrevemos com nosso próprio sangue.

        Estive bebendo café de canudo, olhe só. Minha folha já está no fim.