Faz 30 anos desde a primeira vez em que a
vi, era pra ser pra sempre minha. Era pra ser. É domingo, já passam das dez,
tem um copo de pinga meio vazio no chão e uma carteira de cigarros amassada.
Cortaram a luz ontem e eu estaria no escuro se não fosse a janela quebrada.
Estou ultrapassado, minha máquina de escrever está se deteriorando, mas foi um
presente dela e não poderia me desfazer dele. Só tenho mais uma ou duas folhas
meio amassadas.
Todos os meus amigos morreram de
overdose, todos eles. Um a um e eu sempre pensava que aquele seria o último até
que só restou a mim. Eu sou o último. O que eles dizem sobre mim e sobre você
que se interessa em me ler é o seguinte: somos desocupados e sonhadores,
drogados e vagabundos, isso não é trabalho de gente de verdade. Nunca soube se
uma pessoa de verdade tem coração, pois há muito sou de mentira.
Já não falo mais pois não há o que
falar e minha boca vive amarga. Dor amarga a alma e as palavras. Se houvesse
luz, meu rádio estaria tocando as mesmas músicas dos anos 60. Eles nos olham
com pena, mas acham nossa dor bonita, acham bonita a maneira como nos rasgamos
e escrevemos com nosso próprio sangue.
Estive bebendo café de canudo, olhe só.
Minha folha já está no fim.
Você é muito foda, ótimo texto, caralho, que foda. FODA.
ResponderExcluirCaralho Ivana quem diria muito foda o texto
ResponderExcluirMuito bom mesmo!
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