segunda-feira, 23 de junho de 2014

Desesperança



          Eu estava deitado com a cabeça em seu ventre, ela fazia mil planos e eu estava ali parado ouvindo a vida que pulsava. Eu estava assustado, sem saber o que fazer, completamente desnorteado. Eu não havia planejado nada daquilo e pretendo ir embora. Pode dizer que sou um canalha, pode achar isso, mas não sou. Ao menos não seria com ela. Ela não parava de falar e eu concordava com tudo, mas meu pensamento estava inteiro dentro de seu ventre. Ela achava que talvez nosso amor pudesse nascer com aquele embrião. Mas eu não a amava e de dez minutos para cá nada havia mudado.
         Ela não teria feito isso se tivesse consciência do que carrega dentro de si, de quanto riso e quanta lágrima lhe cabe, de quantas vezes o coração inteiro será partido e endurecerá para enfim acabar-se num suicídio surdo, silenciado, ela não faria. Mas não sabe.
           Não lhe digo que seja inocência, desaviso, não sei se é. Mas é esperança que essa menina carrega sem saber se vinga. A esperança de uma mulher pode alimentar uma vida cheia de desesperança. De dois dedos de conhaque misturado com whisky barato e barbitúricos, sem gelo por favor. Sabe-se lá aonde isso vai parar.
           Decidi sair para fumar um pouco, ver se as ideias clareavam. Estava escuro e frio, mais do que o normal. Quando dei por mim os faróis tinham acendido e eu não havia percebido que estava bem no meio da rua. O vento apagou meu cigarro, devo ter perdido o isqueiro no breu. Bem, ao menos aqueles pensamentos me deixaram em paz. 
     
                                                                                                                               (Marvolo Debram)

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