Eu estava deitado com
a cabeça em seu ventre, ela fazia mil planos e eu estava ali parado ouvindo a
vida que pulsava. Eu estava assustado, sem saber o que fazer, completamente
desnorteado. Eu não havia planejado nada daquilo e pretendo ir embora. Pode
dizer que sou um canalha, pode achar isso, mas não sou. Ao menos não seria com
ela. Ela não parava de falar e eu concordava com tudo, mas meu pensamento
estava inteiro dentro de seu ventre. Ela achava que talvez nosso amor pudesse
nascer com aquele embrião. Mas eu não a amava e de dez minutos para cá nada
havia mudado.
Ela não teria feito
isso se tivesse consciência do que carrega dentro de si, de quanto riso e
quanta lágrima lhe cabe, de quantas vezes o coração inteiro será partido e
endurecerá para enfim acabar-se num suicídio surdo, silenciado, ela não faria.
Mas não sabe.
Não lhe digo que seja
inocência, desaviso, não sei se é. Mas é esperança que essa menina carrega sem
saber se vinga. A esperança de uma mulher pode alimentar uma vida cheia de
desesperança. De dois dedos de conhaque misturado com whisky barato e
barbitúricos, sem gelo por favor. Sabe-se lá aonde isso vai parar.
Decidi sair para fumar um pouco, ver se as ideias clareavam. Estava
escuro e frio, mais do que o normal. Quando dei por mim os faróis tinham
acendido e eu não havia percebido que estava bem no meio da rua. O vento apagou
meu cigarro, devo ter perdido o isqueiro no breu. Bem, ao menos aqueles
pensamentos me deixaram em paz. (Marvolo Debram)
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