Não escrevo poesia, o título foi só um trocadilho legal que eu achei, mas pode procurar os versos brancos dentro da minha prosa. Aviso logo que este blog abriga conteúdo sentimental intenso, então esteja em dia com o seu cardiologista antes de lê-lo. Aviso também que sou apenas responsável por aquilo que escrevo, interprete como lhe convier. Quando crescer quero ser uma raposa, por hora sou apenas uma menina.
quinta-feira, 30 de outubro de 2014
segunda-feira, 27 de outubro de 2014
Das janelas
As janelas vazias solitárias, solidárias ao
poeta inquieto e insone que se debruça sobre a oitava folha rabiscada com a
loucura que viveu nas últimas horas, embebida em lágrimas, da qual nem sentia o
fervor. O jovem rapaz descabelava-se, estava sozinho e na solidão encontrava
sua morada pois não precisava conter sua insanidade e a espalhava por todo o
espaço. Estavam loucos os livros, os sofás, a cama, os talheres, especialmente
as facas. Não precisava e transcendia na transfusão do seu sangue para o papel,
da agonia para os versos, da loucura para os sonetos, do devaneio para as
estrofes, da abstração para a prosa e o romance.
domingo, 26 de outubro de 2014
As cláusulas de Anne Rich
Era uma advogadazinha
recém formada, de estatura média, cabelos cor de cobre e um humor péssimo. “Cale a boca, Duncan!” foi o que disse
pouco antes da primeira entrevista de emprego. Vestida com o terninho preto, de
salto, muito bem maquiada, insegura demais, mas pisava firme pra não deixar
isso transparecer. Ao acaso, percebeu que o entrevistador era o amor de sua
vida. Mas vejam que inconveniente é o amor. Por um instante desafixou os olhos
dele e colocou-os no chão de madeira. Repare só se ele percebe o rubor, se viesse a perguntar, ela diria que era do
blush que passou apressada e não percebeu o exagero, ele nem questionaria.
Prosseguindo com a entrevista, o rapaz de cabelos ondulados e seus trinta e
poucos anos perguntava suas qualificações enquanto ela se perguntava se ele era
solteiro. “Não, que nada, bonito desse
jeito, com esse sorriso, deve ter alguma sortuda que o laçou. Ou pode ser gay,
é triste, mas é uma possibilidade. Ai, não, gay não.” E ele seguia
desnorteado enquanto ela o olhava sem responder. “A senhora não entendeu a pergunta?” “Ah, desculpe, é senhorita.” Ele
ofereceu água, ela bebeu e marcou o copo com o batom bordô. Ele disse que
compreendia o nervosismo e então começaram a conversar sobre a faculdade,
depois o ensino médio, fundamental, os amigos de infância, as broncas que
levavam das professoras e no fim da entrevista, tinham um jantar marcado. Anne
saiu de lá satisfeita, não tinha conseguido o emprego, mas garantira a vaga com
o amor de sua vida. E, ao ir embora, até sorriu pro Duncan.
domingo, 12 de outubro de 2014
Apenas três dias? Sim. Que se passa
pelos lados de cá? Pois conto-lhe o que me contaram, que era preciso, que quase
aos prantos deitou palavras desferidas feito navalhas esperando acertar, mas
nem raspou. Nem de leve? Nem de leve, foi-se achando que estava tudo bem e
deveras estava. Mas ela não sabia, sabia? Que nada, era tapada feito uma porta,
que galhofas. Qual seria minha surpresa se fosse ao contrário, já não queria
acabar com tudo? Querer queria, mas não sabia como. Fez-me favor. Tive outras dúzias
daqueles sonhos de terror. Que dizem? Nem sei, mas me andam a atormentar. De
dia à noite. Não dormes então. É, deixo-te livre para partir. Ao menos um de
nós precisa de um final feliz.
quinta-feira, 2 de outubro de 2014
Diz-se
Diz-se que ela está fadada a um fogo infernal, do qual não
se tem controle, um fogo que é amor, paixão e tudo, que, quase literalmente,
arde, pesa e sangra no peito, que revira o estômago. Diz-se de um amor profano,
que é impuro, mas intenso e cheio de pureza, que é verdade que, de novo, arde.
Que é dor que se rompe, que são dedos que se entrelaçam, que são colos que se
unem, que são seios que se encontram. Diz-se o que há de dizer e diz-se o que
diz o povo, que quase nada sabe e muito fala. Diz-se do amor que é pecado, que
pecado é amor? Hediondo, crime hediondo. Isso não se faz, verdadeiro atentado
às células, verdadeira fadiga. Novo ser não nasce, mas amor transcende e almas
se juntam e morrem à espera uma da outra, são duas almas, são só almas e amor é
fogo. Fogo que destrói, que faz renascer, que mata.
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