segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Das janelas

     As janelas vazias solitárias, solidárias ao poeta inquieto e insone que se debruça sobre a oitava folha rabiscada com a loucura que viveu nas últimas horas, embebida em lágrimas, da qual nem sentia o fervor. O jovem rapaz descabelava-se, estava sozinho e na solidão encontrava sua morada pois não precisava conter sua insanidade e a espalhava por todo o espaço. Estavam loucos os livros, os sofás, a cama, os talheres, especialmente as facas. Não precisava e transcendia na transfusão do seu sangue para o papel, da agonia para os versos, da loucura para os sonetos, do devaneio para as estrofes, da abstração para a prosa e o romance.

domingo, 26 de outubro de 2014

As cláusulas de Anne Rich

    Era uma advogadazinha recém formada, de estatura média, cabelos cor de cobre e um humor péssimo. “Cale a boca, Duncan!” foi o que disse pouco antes da primeira entrevista de emprego. Vestida com o terninho preto, de salto, muito bem maquiada, insegura demais, mas pisava firme pra não deixar isso transparecer. Ao acaso, percebeu que o entrevistador era o amor de sua vida. Mas vejam que inconveniente é o amor. Por um instante desafixou os olhos dele e colocou-os no chão de madeira. Repare só se ele percebe o rubor,  se viesse a perguntar, ela diria que era do blush que passou apressada e não percebeu o exagero, ele nem questionaria. Prosseguindo com a entrevista, o rapaz de cabelos ondulados e seus trinta e poucos anos perguntava suas qualificações enquanto ela se perguntava se ele era solteiro. “Não, que nada, bonito desse jeito, com esse sorriso, deve ter alguma sortuda que o laçou. Ou pode ser gay, é triste, mas é uma possibilidade. Ai, não, gay não.” E ele seguia desnorteado enquanto ela o olhava sem responder. “A senhora não entendeu a pergunta?” “Ah, desculpe, é senhorita.” Ele ofereceu água, ela bebeu e marcou o copo com o batom bordô. Ele disse que compreendia o nervosismo e então começaram a conversar sobre a faculdade, depois o ensino médio, fundamental, os amigos de infância, as broncas que levavam das professoras e no fim da entrevista, tinham um jantar marcado. Anne saiu de lá satisfeita, não tinha conseguido o emprego, mas garantira a vaga com o amor de sua vida. E, ao ir embora, até sorriu pro Duncan.

domingo, 12 de outubro de 2014

         Apenas três dias? Sim. Que se passa pelos lados de cá? Pois conto-lhe o que me contaram, que era preciso, que quase aos prantos deitou palavras desferidas feito navalhas esperando acertar, mas nem raspou. Nem de leve? Nem de leve, foi-se achando que estava tudo bem e deveras estava. Mas ela não sabia, sabia? Que nada, era tapada feito uma porta, que galhofas. Qual seria minha surpresa se fosse ao contrário, já não queria acabar com tudo? Querer queria, mas não sabia como. Fez-me favor. Tive outras dúzias daqueles sonhos de terror. Que dizem? Nem sei, mas me andam a atormentar. De dia à noite. Não dormes então. É, deixo-te livre para partir. Ao menos um de nós precisa de um final feliz. 

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Diz-se

      Diz-se que ela está fadada a um fogo infernal, do qual não se tem controle, um fogo que é amor, paixão e tudo, que, quase literalmente, arde, pesa e sangra no peito, que revira o estômago. Diz-se de um amor profano, que é impuro, mas intenso e cheio de pureza, que é verdade que, de novo, arde. Que é dor que se rompe, que são dedos que se entrelaçam, que são colos que se unem, que são seios que se encontram. Diz-se o que há de dizer e diz-se o que diz o povo, que quase nada sabe e muito fala. Diz-se do amor que é pecado, que pecado é amor? Hediondo, crime hediondo. Isso não se faz, verdadeiro atentado às células, verdadeira fadiga. Novo ser não nasce, mas amor transcende e almas se juntam e morrem à espera uma da outra, são duas almas, são só almas e amor é fogo. Fogo que destrói, que faz renascer, que mata.