domingo, 26 de outubro de 2014

As cláusulas de Anne Rich

    Era uma advogadazinha recém formada, de estatura média, cabelos cor de cobre e um humor péssimo. “Cale a boca, Duncan!” foi o que disse pouco antes da primeira entrevista de emprego. Vestida com o terninho preto, de salto, muito bem maquiada, insegura demais, mas pisava firme pra não deixar isso transparecer. Ao acaso, percebeu que o entrevistador era o amor de sua vida. Mas vejam que inconveniente é o amor. Por um instante desafixou os olhos dele e colocou-os no chão de madeira. Repare só se ele percebe o rubor,  se viesse a perguntar, ela diria que era do blush que passou apressada e não percebeu o exagero, ele nem questionaria. Prosseguindo com a entrevista, o rapaz de cabelos ondulados e seus trinta e poucos anos perguntava suas qualificações enquanto ela se perguntava se ele era solteiro. “Não, que nada, bonito desse jeito, com esse sorriso, deve ter alguma sortuda que o laçou. Ou pode ser gay, é triste, mas é uma possibilidade. Ai, não, gay não.” E ele seguia desnorteado enquanto ela o olhava sem responder. “A senhora não entendeu a pergunta?” “Ah, desculpe, é senhorita.” Ele ofereceu água, ela bebeu e marcou o copo com o batom bordô. Ele disse que compreendia o nervosismo e então começaram a conversar sobre a faculdade, depois o ensino médio, fundamental, os amigos de infância, as broncas que levavam das professoras e no fim da entrevista, tinham um jantar marcado. Anne saiu de lá satisfeita, não tinha conseguido o emprego, mas garantira a vaga com o amor de sua vida. E, ao ir embora, até sorriu pro Duncan.

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