sexta-feira, 13 de junho de 2014

O meio, o fim e o início

      Faz 30 anos desde a primeira vez em que a vi, era pra ser pra sempre minha. Era pra ser. É domingo, já passam das dez, tem um copo de pinga meio vazio no chão e uma carteira de cigarros amassada. Cortaram a luz ontem e eu estaria no escuro se não fosse a janela quebrada. Estou ultrapassado, minha máquina de escrever está se deteriorando, mas foi um presente dela e não poderia me desfazer dele. Só tenho mais uma ou duas folhas meio amassadas.
      Todos os meus amigos morreram de overdose, todos eles. Um a um e eu sempre pensava que aquele seria o último até que só restou a mim. Eu sou o último. O que eles dizem sobre mim e sobre você que se interessa em me ler é o seguinte: somos desocupados e sonhadores, drogados e vagabundos, isso não é trabalho de gente de verdade. Nunca soube se uma pessoa de verdade tem coração, pois há muito sou de mentira.
        Já não falo mais pois não há o que falar e minha boca vive amarga. Dor amarga a alma e as palavras. Se houvesse luz, meu rádio estaria tocando as mesmas músicas dos anos 60. Eles nos olham com pena, mas acham nossa dor bonita, acham bonita a maneira como nos rasgamos e escrevemos com nosso próprio sangue.

        Estive bebendo café de canudo, olhe só. Minha folha já está no fim.

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