segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Tatua-me



Tatua-me em tua pele, tatua-me
nos lugares que minha boca
percorreu dias atrás, extrai de
mim a tinta e me tatua,
tatua-me em teu coração, do
tamanho do meu, sedento de
amor. Tatua nestas veias que
se rompem os dias que contei de
espera, tatua a sequência de
esperanças que criei, feito os genes
que sequenciam meu DNA.
Tatua-me a face com teus beijos
e o meu corpo com teu toque,
tatua meus olhos com teu riso e
teus pés com meu caminho.
Tatua em mim nomes indizíveis e
promessas quebradas, tatua neste
corpo o teu corpo. Tatua nestas mãos
seu prazer e imprime nesses dedos
outra história. Mas me marca,
me toma pra você, me tem, me
exista, resista e persista, mata
tua fome em mim, me semeia,
me saboreia.
Tatua-me.

P.s.: isso não é um poema.

Eu ainda espero



    Eu ainda espero. Espero o dia em que vamos nos encontrar, e você vi vir pra mim, vai sentar no meu colo, pegar nos meus cabelos, vai me beijar os olhos, a boca, o nariz, o rosto inteiro e vai tirar minha camiseta enquanto me olha nos olhos, então tiro sua blusa e  você apressada tenta arrancar minhas calças. Espero que eu caia de algum lugar, de um jeito bem estranho e você caia por cima de mim e então vamos rir de tudo. Eu espero o dia em que vou beber suas lágrimas de saudade de mim, de tristeza por ter de partir de novo e eu vou te fazer qualquer piada inútil, mas você vai rir. Eu espero o dia em que você vai brigar comigo, que irritada vá gritar e eu vou reagir com o sangue fervendo, mas vou voltar para beijar-lhe o ventre e dizer que não aguento ficar longe e que você fica ainda mais linda brava, que pode me bater que eu não ligo, pode gritar que eu te calo a boca com beijos violentos. Eu espero o dia em que você vá ficar doente, mas relaxa, eu cuido de você, dou tudo de mim, faço você tomar aqueles remédios horríveis para ficar boa logo, deito para ser seu travesseiro e te cubro para ser seu cobertor. Eu espero o dia em que o nosso filho nos acorde no meio da madrugada e eu vou ver o que é, pode ficar e dormir e acabo adormecendo com ele no meu peito, você vê e acha lindo e me ama mais. Eu ainda espero.    (Marvolo Debram)

Na madruga boladona



 De madrugada levanto e meu coração que não suporta nada calado avisa minha cabeça de todos os ocorridos antes mesmo que eu consiga respirar mais uma vez. E de tão cheia de tudo quase me afogo em mim, e de tão vazia que me sinto me relevo e resigno-me a levantar, tomar um copo d’água para ver se ameniza a boca seca da sua ausência, volto para a cama e me cubro com as minhas incertezas, olho o escuro e dou um riso sádico, meio doente, mas torno à maresia que havia me tomado. Me deixo levar, me deixo não, sou arrastada, feito cão sem dono, e a correnteza me leva a lugares onde nunca pensei estar, mas sempre estive e nem sabia.

O envelope negro



        Havia escrito uma carta para mim mesma em outra geração. Comprei vários envelopes e os guardei, mas um se destacava. Um envelope preto feito breu, não dava pra escrever nele. Quis então escrever uma carta e colocá-la nele para mandá-la a você. Explicaria que você me tornou de alguma maneira, não sei bem o que foi, mas é o que sinto. Diria que sou como esse envelope, não há nada por fora, não se vê nada, mas por dentro, por dentro sou inteira rabiscada, escrita, desenhada, rasurada. Diria que lhe mostrei coisas que não pensei mostrar a alguém, mas agora não há por que me esconder. Estou cansada de me esconder. Diria também que fui covarde e não tive coragem de escrever diretamente a você. O envelope continua aqui.

Indecisão



   Não sei se embarco ou se continuo aqui. Não sei se espero ou deixo acontecer. Não sei se volto ao meu marasmo insosso ou se fecho a janela pro pôr do sol. Não sei se finjo estar bem ou se me entrego aos prantos. Não sei se rio alto ou se me contenho. Não sei se é esquerda ou direita. Não sei se digo tudo ou se calo. Não sei se procuro ou me acho. Não sei se vou, mas não volto. Não sei se volto sem ir. Não sei se é doce ou salgado. Não sei se é 8 ou 80 (não simpatizo com meios termos). Não sei se é bom ou ruim. Não sei se aviva ou se mata. Não sei se tomo sol ou se fico na chuva. Não sei se me alimento de esperança ou de indiferença. Não sei aonde vou, pra onde vou. Simplesmente não sei.

Placebo



          Já andava cansada de toda essa dor, sabia que precisava de algo para me ajudar, então decidi deixar minha teimosia de lado. Vesti um agasalho e fui até a farmácia. Assim que cheguei, um simpático senhor veio me atender.
           -- O senhor vende remédios para coração partido? – perguntei prestes a dar um espirro escandaloso.
          Ele parou, me olhou bem e viu que eu não estava brincando, afinal, que tipo de pessoa se agasalha ao meio-dia de pleno verão? Tossi discretamente e ele perguntou meus sintomas.
          -- Febre, dor no peito, indisposição, falta de ar, falta de apetite, ardência nos olhos e frio, claro. – Disse apontando o casaco. – Já persiste há duas semanas.
           Ele assentiu com a cabeça, abaixou-se e começou a procurar por algo num balcão à parte. Revirou caixas e caixas por um bom tempo até encontrar uma cor-de-rosa com o desenho de um coraçãozinho vermelho colado com um band-aid. “Pelo amor de Deus”, pensei. Vendo minha expressão, ele disse que um lote reformado com novo design estava para chegar, que aquela era a última caixa. Concordei.
         -- Quanto custa? – perguntei já revirando o bolso, não sei se lembrei de pegar o dinheiro. Droga.
      -- Não é nada, isso se vende feito água. Outro dia um escritor que havia se apaixonado por uma prostituta levou três caixas. Analgésicos para um coração partido.
         “Vish”, pensei.
         -- Obrigada – disse lendo a bula e indo para a porta.
         -- Só uma coisa – ele disse e eu me virei para ele. – Você precisa se desintoxicar.
         -- Como? Eu não me drogo, senhor.
         Ele riu diante da confusão. Disse que eram minhas memórias que precisavam de reparo, de serem domadas para ver se aquietavam meu espírito.
         -- Tome este remédio 3 vezes ao dia e depois de uma semana volte aqui para o processo de desintoxicação.
        -- Ahn, tudo bem.
        -- Obrigado, volte sempre.