segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Placebo



          Já andava cansada de toda essa dor, sabia que precisava de algo para me ajudar, então decidi deixar minha teimosia de lado. Vesti um agasalho e fui até a farmácia. Assim que cheguei, um simpático senhor veio me atender.
           -- O senhor vende remédios para coração partido? – perguntei prestes a dar um espirro escandaloso.
          Ele parou, me olhou bem e viu que eu não estava brincando, afinal, que tipo de pessoa se agasalha ao meio-dia de pleno verão? Tossi discretamente e ele perguntou meus sintomas.
          -- Febre, dor no peito, indisposição, falta de ar, falta de apetite, ardência nos olhos e frio, claro. – Disse apontando o casaco. – Já persiste há duas semanas.
           Ele assentiu com a cabeça, abaixou-se e começou a procurar por algo num balcão à parte. Revirou caixas e caixas por um bom tempo até encontrar uma cor-de-rosa com o desenho de um coraçãozinho vermelho colado com um band-aid. “Pelo amor de Deus”, pensei. Vendo minha expressão, ele disse que um lote reformado com novo design estava para chegar, que aquela era a última caixa. Concordei.
         -- Quanto custa? – perguntei já revirando o bolso, não sei se lembrei de pegar o dinheiro. Droga.
      -- Não é nada, isso se vende feito água. Outro dia um escritor que havia se apaixonado por uma prostituta levou três caixas. Analgésicos para um coração partido.
         “Vish”, pensei.
         -- Obrigada – disse lendo a bula e indo para a porta.
         -- Só uma coisa – ele disse e eu me virei para ele. – Você precisa se desintoxicar.
         -- Como? Eu não me drogo, senhor.
         Ele riu diante da confusão. Disse que eram minhas memórias que precisavam de reparo, de serem domadas para ver se aquietavam meu espírito.
         -- Tome este remédio 3 vezes ao dia e depois de uma semana volte aqui para o processo de desintoxicação.
        -- Ahn, tudo bem.
        -- Obrigado, volte sempre.

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