terça-feira, 15 de dezembro de 2015

O armário que faltava

            Nova na cidade, fui visitar as casas que tinha visto para morar. Entrei em uma, monocromática demais, noutra, colorida demais, tinha visitado umas cinco casas até quase desistir. Então a encontrei. A casa era simples, casa de vila, preguiçosa, como o antigo dono tinha descrito, uma delícia. Da cozinha se podia ver as folhas ao vento, umas caindo, o silêncio reinava. A decoração era tranquila, tinha algumas coisas escritas nas paredes, coisas dos antigos donos. A casa também parecia antiga, mas aconchegante.
                       Reparei em cada detalhe, prestei atenção em cada risco de cada móvel, das tábuas soltas no chão, de uma xícara deixada para trás com uma alça quebrada. Apurei meus olhos e olhei as paredes, pia, torneira, fogão, paredes, dois buracos. Devia ser de parafuso, mais dois, acima mais dois. Algo faltava ali, eu sentia e por mais estranho que fosse, me identifiquei com a parede, quase ri depois de ter pensado isso, mas me deixei apreciar os espaços vazios.
                           É coisa da vida, com objetos, com gente, as coisas sempre deixam marcas quando vão embora, mesmo que digam que não, que dá pra colocar cimento aqui e ali. Sempre fica. 


domingo, 6 de dezembro de 2015

Carta ao remetente

Desde já me desculpo.
                As encomendas voltaram todas, eu não sei o que aconteceu, demorou tanto que pensei ter sido tudo extraviado, não foi. Voltaram meio amassadas as encomendas, as cartas, as palavras distorcidas, creio que deixaram cair algo por cima que turvou o texto e empatou a visão completa do que estava na história.
                O chocolate amargo não voltou, este sim deve ter sido extraviado por algum funcionário malandro, pois não vejo outra explicação que não essa. Voltou também um pouco de incerteza, de culpa pela minha sociopatia manipuladora, de desespero. Com as minhas próprias encomendas eu sei lidar, com alheias não, desculpe.
                Passei um tempo olhando as caixas, sem saber o que fazer com elas, tentei consertar os amassados, limpar algumas manchas que tinham ficado, mas não consegui. Decidi que o mais certo seria então retorná-las. Não fujo da minha responsabilidade, longe de mim, mas creio que será melhor assim, se tiver algum tipo de alteração a fazer, você será a pessoa mais apropriada para isso.
                Peço novamente desculpas pela desatenção e pela falta de cuidados, não li as instruções corretamente e agora isso já não me diz respeito, como quase nada que é referente a esse tipo de coisa, você sabe, não sou muito boa.
                   Espero que tudo tenha se esclarecido, qualquer coisa, segue um selo junto à carta e o meu endereço no verso, você pode me retornar.

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

O Bicho Papão dos tempos modernos

          Não há nada de bom nos jornais, todos os dias as tragédias enchem as páginas acinzentadas que, seguradas por mãos firmes, deixam as gotas do sangue de suas vítimas escorrerem. As veias do medo andam cheias.
Outro dia estava no ônibus, hora do rush e o mau humor tomando conta de mim.
“Ele não sai do lugar”, eu pensava, “ainda por cima com crianças perto de mim.” Mas aquele era o único lugar vago. Não é que eu odeie crianças ou algo assim, mas nessas horas qualquer coisa me irrita. Prossigamos.
O menino era até bem quieto, o que com certeza amenizou meu mau humor. Mas, como toda criança, não parava de falar (pelo menos não gritava).
“Um dia vou ser um herói, eu não tenho medo”, o menino dizia repetidas vezes à mãe, que sorria. Sorri involuntariamente me lembrando de como eu pensava parecido. “Não sinto medo.”
“Sabe por que ficam fechadas?” Ele perguntou apontando as janelas.
“Por quê?” A mãe perguntou gentilmente.
“Pra ladrão não entrar”, ele dizia num tom sério.
“De ladrão você tem medo, João?” Ela perguntou.
“Tenho, são homens maus.”
E então eu comecei a pensar, quando foi que deixamos nossas crianças se preocuparem com “problemas de adulto”? Desde quando elas pararam de pedir que dissessem que não havia nada embaixo da cama? Desde quando pararam de olhar os armários buscando monstros pra procurar por criminosos?
Eu penso em como foi minha infância, em como as únicas coisas das quais eu precisava ter medo (mesmo dizendo que não tinha) eram das assombrações que inventavam, penso na lanterna que eu carregava pra me proteger do medo que eu tinha do escuro. Eles não têm mais medo do escuro, têm do que pode estar lá, de quem pode estar. Como deixamos chegar a esse ponto?



quarta-feira, 27 de maio de 2015

Seinsano

         Na noite escura do dia vazio eu sonhei. Sonhei um sonho cheio de reviravoltas, quem me via de longe mais dizia que era aquilo pesadelo dos mais insanos. E era. Me revirei três vezes ao me encontrar acordada no meio da noite, era madrugada e eu não dormia, não havia como. Não havia. Dois desses dias de agonia de sangue, eu me vi reprimida numa atitude meio impensada, no uivo do vento e no sussurro das portas que rangiam, das falanges endurecidas dos dedos que um dia agarraram aqueles pedaços de passado. Outro notívago se aproximou, os corredores de estreitaram, o delírio se alterou e, olhando nos olhos da minha insanidade, acalmei. Afagando-me os cabelos, eu em teu seio adormeci.

segunda-feira, 23 de março de 2015

The Thunderstorm Girl

Eu já havia me acostumado, todos os meses eram iguais, ela explodia feito uma louca. Ao menos uma vez. Nas primeiras, eu me vi completamente desesperado, achando que ela iria embora para nunca mais voltar. Parei de pentear os cabelos procurando uma solução para apagar o fogo que ardia no meu peito. E uma semana depois, com a cara lavada, ela apareceu. Por um ou dois segundos, meu orgulho me disse que deveria ignorá-la e assim o fiz, mas sabia que era por puro charme, quando ela voltou o olhar para mim, não resisti a um beijo e a um abraço apertado. Eu pensei que poderia tê-la perdido.
Ocasionalmente, aqueles ataques de fúria e indiferença me faziam querer desistir de tudo, mas eu sabia que ninguém me preencheria daquele jeito, que não completariam meu corpo e que sua fúria se casava silenciosamente com a minha calmaria. Decidi parar de pensar essas coisas e me entregar ao mar turbulento que ela era. Eu era o barco, uma canoa simples desafiada a navegar daquele jeito.
Vez ou outra me pegava rindo sozinho, bagunçando meu próprio cabelo do jeito como ela fazia, não acreditava que poderia ter sido eu o escolhido, eu que era tão indiferente e calmo, que nada tinha que me fizesse sair do chão. Logo eu estava ali, acorrentado a ela como um animal à sua jaula e era dessa maneira que eu sabia que era real. Quanto mais ela brigava, mais meu amor por ela crescia. Metade dos meus amigos achava que eu tinha enlouquecido por estar com ela “mesmo depois de tudo”, como eles mesmos diziam. Mas eles não sabiam de nada, eles nunca sabem.
Eles não sabiam que eu encontrei meu lar dentro daquela turbulência, que ela era o único lugar de onde eu não tinha vontade de ir embora, que vez ou outra eu me descabelava, eu tinha um medo absurdo e isso me tornava humano e frágil e ser humano me tornava melhor. Eles achavam que ela estava me matando, mas, com todo aquele caos e turbulência, ela estava apenas me tirando do marasmo, me dando vida.


domingo, 22 de março de 2015

A feiticeira do vento

Venho aqui esta noite para lhes contar a história da Velha Bruxa Notívaga. A acompanhei numa viagem curta, uma hora no máximo. Por pura distração, não a havia notado bem, parecia uma pessoa como qualquer outra que viajava. Olhava as luzes, os carros na direção oposta, os transeuntes.
Quando por fim decidi prestar atenção a ela, reparei no brilho infantil de seus olhos, como quem avista o mundo pela primeira vez, com os olhos imersos num fascínio que não se descreve. As maçãs do rosto negro estavam completamente destacadas, enquanto as rugas que lhe cobriam a face levemente se movimentavam.
“Vá, que o vento o leve.” Ela sussurrava, mas demorei um pouco a entender. Com um sorriso e a boca mais próxima à janela, ela ia sussurrando coisas que eu não conseguia ouvir num fervor, num tom de oração que me comovia.
“Venha, que o vento te traga.” Sussurrou e eu percebi.
Da mesma maneira que estive antes frente ao mar pedindo às ondas que levassem e afogassem o meu algoz para me trazer meu salvador, ela orava. Como eu orei desesperadamente esperando que o meu espírito fosse lavado. Como o vento que me dizia, silvando qualquer coisa que me tirou do chão, ela não parou.

Num minuto, senti a intensidade daqueles pedidos, tão afoitos quanto os meus. E, por fim, quando as luzes se apagaram, nós duas sabíamos, internamente, num lugar profundo, que qualquer oração, feita ao mar, ao vento, ao sol ou à lua, nunca, de maneira alguma, era em vão.

quarta-feira, 11 de março de 2015

Pessoas

É difícil fazer as coisas sozinha, é complicado não ter talento para fazer tudo o que esperam que se faça, é massante, realmente massante não conseguir abandonar certas coisas. As coisas, todas elas, são feitas por pessoas, todos os seus defeitos e imperfeições e sua satisfação estampados em cada uma das letras que escrevem lá pelas linhas do destino.
      Como os estranhos aos quais eu dou vida, a Garota do 702, a outra da papelaria, a de óculos escuros e tantas outras que me cruzam o caminho. E por mais estranho que se pareça, eu gosto deles enquanto eles são apenas estranhos. A falta de proximidade me torna legítima possuidora das vidas que eu crio para cada um deles e por aí vou me perdendo na beleza alheia que eu encontro, nas cicatrizes que lhes faço, nos beijos, nos sorrisos, nos colos morenos, macios, nos lábios aveludados de todos os tons. E que seja possessivo, que lhe pareça.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Metade de um batom

Lembra daquele batom que você esqueceu no meu apartamento na segunda gaveta da cômoda à esquerda? Não via mais utilidade, o usei para escrever todas aquelas atrocidades e não vou me desculpar. Devia ter deixado a maquiagem inteira, pintaria melhor sua porta e seu caminho. Quando o encontrei, depois de uma ou duas semanas, quase não acreditei. Ele me revelava, da maneira mais traiçoeira, o seu cheiro, me olhava com seus olhos pretos e sussurrava coisas que eu não entendia com a sua voz. Não fiz questão de aparar a torrente que se sucedeu. Metade do teu batom vermelho estava nas minhas mãos. Lembrei das vezes em que você o passou e meus olhos se encantaram por aquela cena e, disfarçadamente se estendiam até seus lábios. Você limpava os excessos, deixava uma marca no meu colarinho, pintava com os seus os meus lábios e eu ria e dizia que aquilo realçava meus olhos, você ria e o carmin que emoldurava seu sorriso atiçava e prendia meus olhos, minhas mãos tremiam e eu as escondia nos bolsos, dizia que era charme e você gostava.

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Se sou fogo

     Talvez num outro dia eu pedisse para ser um dos botões da tua camisa, um fiapo da tua blusa de seda, a barra da tua calça, um anel no teu dedo, um brinco na tua orelha, teu batom. Mas agora não é suficiente. A fome que me toma nesse instante é maior, mais violenta e voraz do que a minha sede de antes, juraria qualquer coisa, mas sem perceber me despi dos meus preconceitos e dos meus princípios. Não é mais teu corpo e não será, não me sacio e das vezes em que a água do teu ser aplacou meu fogo era irreal. Não desconstruo com falsos moralismos tudo o que houve, nem é real o que digo acima, é só bonito. Desta maneira desando a falar e sem mais falar meu corpo jorra da incerteza de ter sido substituído por uma confiança que não sei aonde encontrei, mas jaz aqui. Qualquer semelhança comigo de antes é mera coincidência, inconveniência mesmo da vida que há muito fora deixada. Vê por minhas palavras que são o que há de mais puro em mim, de mais bruto. Pois se sou rocha não falho, não caio por terra e não desato a cometer essas gafes que pouco me tocam. Se sou água, desvio e deságuo, banho teus corpos desnudos, me escondo e vejo por todas as frestas. Se sou fogo apenas ardo na urgência do meu comburente.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Sol de sábado

             Minha garganta estava seca, era um desses dias de sol, parecia sábado, um calor infernal e eu estava andando, procurando. "Aí não, tem gente demais." E nada discretamente me virei e voltei pelo mesmo caminho que vinha. Nunca gostei mesmo de multidão, todos aqueles estranhos, nunca foi meu forte, continuei andando, parei, pedi informação e andei mais um pouco. "Deus, que calor." Eu puxava a gola da minha camiseta tentando fazer entrar um pouco de ar, não adiantava. Uma garota achou que eu a estava seguindo, não estava, eu estava procurando, sem querer achar, mas estava.
            Meu coração estava acelerado, parei e bebi água, respirei fundo, molhei as mãos e continuei. A copa das árvores balançava, mas o vento era quente também. Não quis olhar para os lados e não olhei. Dobrei a esquina e dei de cara com ela, minha garganta secou de novo, minhas mãos suaram, engoli seco sem saber o que dizer, ajeitei os óculos na tentativa de desviar o olhar, mas ela sabia, sorriu e meus olhos não me obedeceram mais. Ela se virou e eu arrumei o cabelo, estava enfeitiçado, dei um sorriso meio torto e idiota e ela riu de novo. Suei em bicas, minha respiração estava acelerada. "Vou desmaiar, como pode? Seja homem, não trema." Era inútil, não conseguia nem falar.
         

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Theodore

Theodore era um rapazinho incapaz de amar, vez por outra taxado de sem coração.  Ele era egoísta, imaturo e despreparado, não sabia lidar com as pessoas mesmo. Num desses dias abastados da solidão que o atormentava e que, por pura incompetência ou apego, não se sabe, ele decidia manter – e alimentar –, ele encontrou alguém. Uma pessoa tão maravilhosa, meiga, que ouvia os mesmos discos, assistia aos mesmos filmes que ele. “Teremos muito o que conversar”, ele pensou.
         A convivência era ótima, eu me arriscaria seriamente a dizer que era perfeita. Essa pessoa sempre o acompanhava independentemente de tudo o que acontecia, apoiava e participava de absolutamente tudo na vida de Theodore, a conexão que existia parecia irreal. Até que não havia mais nada de novo, tudo se tornou monótono e repetitivo. Qual não foi a surpresa de Theo quando tiveram a primeira discussão e, num acesso descontrolado de raiva ele acabou por quebrar o espelho no qual essa tal pessoa residia.

         Imagine quão frustrado Theodore não ficou ao perceber que nem ele mesmo se suportava mais.