terça-feira, 24 de outubro de 2017

Luz de dentro

      Quando as luzes de dentro se apagam é possível perceber todos os pontos de luz exteriores. Onde brilha, onde não brilha, onde é amarelo e onde a luz trêmula fica azulada. Mas o escuro do interior me amedronta no momento em que a minha visão turva me leva a ver coisas que eu não veria na luz. Não seria ao contrário? Não devia ser? 

      Quando a luz de dentro então se acende, meus olhos se tornam cegos para aquilo o que está além de mim. Raras luzes, alaranjadas, transpassam a película opaca de luz branca do interior. Pontos específicos com sentidos e significados específicos. 

      Nunca sei das horas em que elas se apagam, nem quando ou se o farão, mas aguardo enquanto fito o horizonte envolto em breu. Não vejo um palmo à minha frente. Não aqui dentro, lá fora. Aqui eu vejo, mas anseio por enxergar longe, anseio por ver aquilo o que a luz pálida encobre. 

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Primeira vez



          Foi a primeira vez. A primeira vez que os lábios daquela moça se encontraram com os meus daquele modo, que o corpo dela pairava sob o meu, envolto na penumbra que escondia a formosura e as curvas. A primeira vez em que a visão e todos os acontecimentos juntos se sobrepuseram ao meu poder descritivo, eu não sabia por onde começar. Não acreditei no que aqueles olhos baixos e tímidos me escondiam. E quando já desnuda, seu corpo parecia se alongar, em busca de prolongar o prazer, as formas que minha boca tateava no escuro eram vagarosamente saborosas. 

         Quando a luz penetrava o cômodo e o corpo se retorcia, eu via as formas que se interpunham entre minha boca e a dela. As montanhas das costelas faziam nítidos os vales que lhe desciam pelo abdômen até a depressão do umbigo e o prazer daquela moça então desaguava na minha boca, sedenta. As mãos dela me tateavam para me levar mais para perto, um pouco mais, mais, até atravessar todo o caminho. Até o corpo quente e as mãos firmes se derreterem na minha boca, boca essa que encontrou a boca dela em seguida. Não sei quando, em que momento, no escuro não havia horas, não se via a lua. 

        Já ao amanhecer, enquanto a luz do sol penetrava preguiçosamente o recinto, a sombra dos nossos lábios se encontrava delicadamente no colchão enquanto os substantivos se uniam para formar uma oração meio arfada. Quando busquei naquele momento descrever, não o soube e provavelmente não o sei agora. Mas era mais que poesia, humildemente recorri à minha biblioteca mental mas não tive a pretensão de saber. Me perguntei, junto à minha racionalidade, se aquele era o mesmo corpo que eu tinha encontrado inúmeras vezes, provavelmente também não era o meu o mesmo. Também isso não sei. Mas sei que sinto falta daquele corpo próximo ao meu, daquele cheiro me penetrando e inconscientemente me levando a um estado de maciez no espírito, de leveza, das histórias contadas de manhã cedo, do sorriso leve tão próximo e tão nítido aos meus olhos míopes, das curvas do nariz, dos traços do pescoço, das clavículas e dos demais desenhos que me fizeram contemplar seu corpo.

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

Apatia

        Nenhum dia era igual. Dentro da luz azulada que emanava da minha apatia eu me arrastava pelos dias, me arrasto. Quando eu sou a terceira pessoa tentando escrever uma história que talvez não seja minha. Mas é isso o que os escritores fazem, e as escritoras. Eles se apropriam de histórias que não são deles, de corpos que não o são, de desejos que não lhes pertencem. Quando a playlist tocava, repetidas vezes, as músicas que ela havia me dito que gostava, eu pensei na peculiaridade daquele gosto, daqueles arranjos, da voz que conduzia aquelas músicas, tão grave quanto a ânsia que ardia em mim e que desejava conduzir aquele corpo que não era necessariamente meu, que talvez não passasse de idealização.

          Mas nada é ideal. Nada que transpassa as veias da humanidade é ideal. Não as coisas que atravessam o desejo do corpo e o crepitar da alma, o desejo inflamado e descontrolado. Pelas minhas contas, se passaram cerca de vinte e sete dias, como os vinte e sete anos da Amy, de um ocaso previsto já e adiado pela crença em algo que também não era meu. Não era para ser. 

             Cerca de vinte e dois minutos depois e três músicas nas quais prestei atenção, meu ombro direito dói e meu corpo se esvazia por conta do desejo de algo que não me pertence. A pertença então é complexa no sentido de assenhorear. Não dá para ser senhor de si própria, imagine... Mas a fome não deixa de possuir meu corpo e a visão dela não deixa de umedecer meus pensamentos.

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Carta aberta a um coração partido

        Venho, por meio desta, registrar algumas coisas que eu não te disse. Não fiz questão de dizer, talvez para não te pressionar por meio das minhas expectativas em nós duas. Mas todas as vezes em que eu te via me esperando naquele corredor, minha mente viajava paralelamente ao dia em que nos uniríamos oficialmente. E quando eu avistava o seu sorriso, o meu se retorcia dentro de mim, ansiando pelos seus lábios, pela proximidade dos corpos e do enlace num abraço apertado.
           Talvez eu não tenha dito também por não saber como seriam recebidas minhas palavras, não saberei então. Talvez eu tenha sido covarde demais e eu não me culpo, ou a você, mas dizer que a situação é complicada e repetir isso como um mantra também não ia fazer a gente aguentar melhor o tranco. Ontem à noite eu visualizei seu corpo desnudo banhado pela luz que entra pela janela do meu quarto, e na penumbra visualizei as constelações do seu corpo, das suas pernas, das suas costas, dos seus seios. 
            Quando minha mente febril passeou pelo seu corpo, seu toque não passava de um delírio incoerente e de frases balbuciadas lenta e desesperadamente. As minhas sensações ainda eram suas, das suas mãos pequenas e dos seus lábios finos, macios, nos meus machucados. Quando o suor do meu corpo grudou nos lençóis, a sua imagem já tinha se esvaído e eu lutava para não me afogar numa lagoa que encontrei pelo meio do caminho, enquanto o onirismo se confundia com a realidade, enquanto, em meus sonhos armavam planos mirabolantes para a derrubada de grandes governos, minha vida se encontrava desgovernada. 
                 Agora pouco diferem palavras da situação, a dor não se desloca, não se apaga nem em sonhos, sua ausência é quase insuportável, não pensei que fosse ser assim, mas da última vez que eu senti um corte na minha pele e o sangue jorrava torrencialmente, tudo era um pouco menos doloroso. Venho também me retratar pelos dias de discussões inúteis e mesquinhas, pelos mal-entendidos, que não foram poucos e por todas as coisas que eu não percebi por conta da minha visão falha e percepção limitada. 

quinta-feira, 29 de junho de 2017

Sensações

Já se sentiu como um jovem deus? Como se o poder estivesse a fluir de dentro para fora, das pontas dos dedos para as folhas das árvores, das solas dos pés para o chão. E depois, num ato retributo, o caminho reverso fosse feito. Quando o sangue das árvores começa a correr nas suas veias e a fusão é una. Já sentiu como se quisesse dominar e conhecer a si próprio? Conhece-te. Mas, digo, não será possível conhecer ao outro. E quando pensares que te comunicas, tudo se torna cinza. Quando pensares que as coisas vão bem, pois, vão, ou diga que não. Mas quem não conhece a si nunca terá a chance de tentar conhecer ao outro.

A primeira questão é se permitir, a segunda, o tato. Não tocas na pele sensível com garras ou mãos de ferro, não tocas na garganta com presas, ou matas. Não tocas os seios sem delicadeza pois a pele reconhece o toque e às vezes ele arde. A pele também reconhece a terra que dorme debaixo das solas dos pés e nas pontas dos dedos.

O corpo apreende como um canal, um punhado de carne e estrutura óssea que serve a um propósito maior, a fingir que abriga a gama de emoções que cabem num único órgão, tão miúdo quanto um punho fechado. O corpo que se fecha nas sensações mais primordiais de necessidade, de precisão. Do paladar que se descobre ao apreender os sabores de outro corpo. De se privar de todas as sensações e enlouquecer.

segunda-feira, 1 de maio de 2017

Naufrágio

Nos primeiros dias eu me permitia mergulhar sem medo, meus pés ainda tocavam o fundo e minha cabeça estava suficientemente acima da água para que eu pudesse respirar tranquilamente. À medida em que o tempo se passou então eu me permiti nadar em águas mais profundas e fui aos poucos descobrindo que eu conseguia me manter,  eu estava me descobrindo ali também. Mas em certo momento minhas pernas começaram a falhar, meus músculos já não respondiam e eu já não conseguia respirar com a mesma agilidade. A água começou a invadir meu corpo, minhas narinas começaram a arder e meus pulmões se comprimiam com a pressão. Eu não conseguia mais voltar à superfície,  foi aí que eu comecei a afundar, foi assim que eu descobri qual era a sensação de me afogar. Eu nunca fui exímia nadadora, e ela era o mar inteiro.  Havia dias em que a tormenta tomava conta daquele mar e eu naufragava, e nadava sofregamente pronta a me agarrar a qualquer destroço que fosse. Não havia destroços,  não havia nada que pudesse me tirar dali além dela, mas quando reparei de novo, ela não estava mais lá. Foi assim que eu percebi que amar é poder nadar nas águas do outro sem se afogar

Sinapses

Quando a pele dela tocava a minha, meus pêlos se eriçavam para ficarem mais próximos ao corpo dela. Quando via a boca, meus olhos se enchiam e mandavam estímulos para a boca, que se repuxava para cima. A tez corava, relaxada pela presença daquela moça miúda. Quando sentia o cheiro, os pulmões se abriam com mais facilidade para poder absorver o perfume dela. Quando começava a sentir seu sabor, o paladar apurava buscando as oscilações, degustando o prazer. Quando a pele tocava, o coração batia com mais força, compassado com o dela. Quando os seios se tocavam, a respiração surda virava um gemido discreto, sibilado no escuro dos olhos fechados. Quando os dentes tocavam a pele, a dor não era dor, ou era prazerosa. Quando os dedos dela roçavam pelo meu corpo, minha pele reconhecia e se entregava de corpo. Quando dentro dos olhos dela eu me reconhecia, então minha alma que se entregava. A rendição nunca foi tão facilitada pelas sinapses do meu corpo quanto naqueles dias em que ela se deixou residir em mim. Nos outros, meu corpo se resguardava como muralha, poeira, pedra, terra. Inerte. Foi ela chegar e todas as funções se vincularam numa sinestesia inexplicada, todos os sentidos se excitaram para apreendê-la por completo. Cada pedaço, cada centímetro do tecido que revestia meu corpo se preocupava em revestir cada parte minúscula do corpo dela.

Despedidas

Coloquei as minhas roupas dobradas sobre a cama e organizei minuciosamente as coisas para o dia em que a veria para uma conversa, para outro dos diversos adeus que já tínhamos proferido uma à outra. Fiz questão de separar um par de meias iguais (eu tenho dificuldade de encontrar minhas meias às vezes) e reservei ali num cantinho da gaveta para a ocasião.
Engomei umas duas camisetas para estar impecável e ter opção de escolha para o dia. Lavei meus tênis e coloquei em cada um deles o peso dos pés que me arrastariam até aquela ocasião. Guardei nos meus bolsos da frente um sem tamanho de anotações, e nos bolsos das calças só como lembrete mesmo. Enfiei um isqueiro onde estaria o bolso da minha camisa e um cigarro imaginário cuidadosamente posto nas minhas coisas para fumar dramaticamente depois com um pé em cima do banco e outro pendendo, como nas cenas de filmes de romance baratos.
Levei meus óculos escuros para esconder a incerteza que carregava nos meus olhos e maquiar o desejo que eles ainda possuíam pela dona da voz que me falaria. Escolhi a playlist que eu achei que me distrairia, numa tentativa inútil de me transportar a um lugar onde meu coração não palpitasse.
 Escolhi tudo em seus mínimos detalhes para causar uma última boa impressão, como da primeira vez e em todas as outras. Eu estava sempre reparando nos detalhes prévios e posteriores. Sempre construindo discursos que se esfacelavam com a emoção, arrumando as mangas que se desfaziam amassadas pelo nervosismo e dos botões que ela arrancava da minha roupa quando o desejo e a saudade eram mais intensos do que todas as outras coisas em que pensávamos. E quando o corpo dela jazia sobre o meu, eu só conseguia agradecer por, depois de tanto tempo reparando em tudo, ela ter me bagunçado inteira.

quinta-feira, 23 de março de 2017

Sete dias

Eu sinto a falta dela. Quando respiro um perfume na rua que me lembra ela, prendo a respiração sem saber como expelir aquilo. Sem saber como fazer meu coração entrar num compasso novamente. Encontrei alguns hematomas pelo corpo, minhas veias estão translúcidas, da transparência do meu sangue fraco.

Há sete dias me arrasto pelos cantos. Há sete dias não vejo o brilho dos seus olhos ou sinto o gosto da sua boca. Na verdade, não sinto sabor nenhum. Há sete dias não me apaixono. Há cerca de sete dias não coloco uma gota de álcool na boca ou tomo uma decisão radical. Ela odiava minhas decisões radicais, odeia. Há sete dias meu corpo não vê cafeína e nos sonhos, uma estranha me visita nas circunstâncias mais inadequadas. Há sete dias não sou posse. Na verdade nunca fui posse.

Há sete dias sinto a falta dela. Há sete dias a água que cai do chuveiro é mais fria porque a lembrança do corpo dela não é mais presente para me aquecer. Há sete dias a minha cama é mais espaçosa. Há cerca de sete dias meus desejos se esvaíram. Não por ela. Há sete dias não sei o que ouvir em droga de playlist nenhuma.

Há sete dias tenho raiva dela, tenho asco, tenho refletido se não exagerei. Há sete dias o horóscopo disse que eu tomava a melhor decisão. Há sete dias eu escrevi uma carta que a tomou de mim. Mas percebo que se foi tomada, nunca foi minha. Não foram os sete dias produtivos? Há sete dias não relato o cotidiano tedioso da minha vida a ela. Não me reporto e não compartilho. Há sete dias estou só.

terça-feira, 21 de março de 2017

Espaço Vazio



Hoje foi um desses dias atípicos, mais amarelado que o normal, com o pôr-do-sol mais brando, preguiçoso. Estava viajando, olhei pela janela do carro e pela paisagem, em determinados pontos, havia um espaço vazio. Onde havia aquela construção agora não há nada, tudo tinha ido abaixo. Respirei fundo. Continuei a olhar, ela não andaria comigo mais por aquelas ruas, ruas essas que outro dia eu tinha percorrido justamente no intento de encontrá-la. Não o faria novamente.

Passei em frente ao cinema, o mesmo cinema onde, mesmo com os amigos dela, lá no escurinho, ela segurou minha mão. Eu não fiquei chateada por ela não ter falado que eu era dela, mas admirei a atitude. As mãos, não as seguraria mais. 

Relembrei tudo novamente e de novo até os olhos estarem afogados e fingi só uma irritação para poder limpá-los. 

Lembrei dos presentes e do hematoma que eu tinha conseguido bem no nó do mindinho, eu estava furiosa, eu vivia furiosa, mas ela sempre me acalmava de algum jeito. Eu não teria mais calmaria. 

Voltei de viagem, todo o local parecia preenchido. Justamente onde eu deveria estar havia uma lacuna e nesse intento percebi que a gente vê as coisas de dentro para fora ao projetar nelas o que há dentro de nós. O lugar estava vazio.

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Café frio


Estou suando em pleno verão, sentada numa cadeira de praia no meio da minha cozinha. Meu café esfriou demais e eu fito as paredes procurando o que dizer, o que sentir. Primeiro eu me apaixonei pelo vincozinho que ela tem e liga o septo ao lábio superior,  depois me apaixonei pelas formas como ela me seduzia, depois pela maneira de relatar as histórias do seu cotidiano a mim. Ter uma cadeira de praia na cozinha dá inspiração suficiente. Eu poderia até fumar um cigarro, mas não sou adepta a essa modalidade de embriaguez. Estava até lembrando das músicas da Amy Winehouse quando pensei “que bad” e prossegui lavando a louça do jantar. O lugar dela na mesa estava vazio, o prato dela não estava mais lá. Nem os talheres e a xícara. Olhei em volta e ela não estava mais lá. Eu preciso dizer que me apaixonei pelos olhos e pelo sorriso assim quando sorria pra mim e quando eu era causa daquele movimento súbito dos lábios que me beijavam a boca e dos dentes que me mordiam nos lugares mais inapropriados. Era o jeito dela de dizer que eu era sua e eu adorava. Eu a adorei enquanto ela morava em mim e nos dias em que alugou só um quarto, ficou alguns dias e foi embora. Quando voltou eu ainda a adorava e o quarto vivia arrumado da mesma maneira que ela havia deixado. Esses dias ela pediu as contas, disse que era hora, foi-se embora assim. Eu também estava cansada, deixei-a ir. Desarrumei o quarto inteiro, de cima a baixo,  não deixei um grão de poeira que era dela. Coloquei o café na xícara e ele esfriou. Não à toa repouso nessa cadeira. Quando se fracassa se faz coisas que nem se pode explicar. Mas eu não fracassei. Eu lutei dia após dia, não foi suficiente. Cruzo as pernas e me embebo num ar blasé enquanto seguro meu café frio e meu cigarro imaginário entre os dedos. As tragadas que sopram meus pulmões não são assim intensas como o vidro de perfume que ela deixou pra trás, então não me dou ao trabalho de fumar, mas respiro. Respiro profundamente enquanto repouso na cadeira de praia da minha cozinha e as músicas da Amy ressoam ao fundo.

sábado, 4 de fevereiro de 2017

Três perfumes

O cheiro entra nas minhas narinas e a sua imagem vem à minha cabeça. E o seu corpo passeia pelas minhas mãos. As ondas dos seus cabelos serpenteiam no ar. E eu sinto seus braços em volta do meu corpo. Eu sinto a força do seu corpo sobre o meu, sob o meu, dos meus lados, eu sinto. Eu sinto as fantasias serpentearem pelas linhas da sua nuca e viajarem pelos seus lábios até acabarem repuxados nas linhas dos meus. Eu sinto seu tamanho no meu, quase equivalente.

O cheiro entra nas minhas narinas e a sua imagem vem à minha cabeça. E o seu corpo envolve o meu. A lisura dos seus cabelos cai por entre os meus dedos, que o agarram como quem, tomado de fome, devora. E eu sinto minhas mãos sentirem sua pele. Eu sinto o peso da sua altura, das marcas do seu corpo, eu sinto seu corpo se remexer na minha boca. Eu sinto seu cheiro descer por entre minhas pernas e arrepio. Eu sinto a pressão do seu desejo sob mim.

O cheiro entra nas minhas narinas e a sua imagem vem à minha cabeça. E o seu corpo aquece o meu, o incendeia. A longura dos seus cabelos se enrolam nos meus dedos e a boca se entreabre. Eu sinto suas unhas rasgarem minha pele, seus dentes marcarem meu corpo. Eu sinto a pele das palmas da sua mão nas minhas. Eu sinto seu corpo sob, sobre, dentro de mim. Eu sinto seu corpo transcender o meu. Eu sinto as linhas do seu maxilar nas curvas dos meus lábios e o frescor do seu gosto na minha boca.

O cheiro entra nas minhas narinas e eu sinto o sabor da perfídia. Minhas roupas vivem sujas de cheiros que não são meus. Meu corpo vive sujo de mãos que não são minhas. Meu amor seca ao se deparar com cada alma vazia que se enche de carne. Cada alma vazia cheia de lascívia se enche ao se deparar com meu amor. Cada unha que tira de mim a pele se enche do que não é meu, mas do que ela projeta em mim. Cada fantasia me consome vagarosamente como o cigarro que ela traga depois de me usar. Como a risada que ela dá depois de me usar. Como o amor que ela me dá enquanto me usa.