segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Memórias

      Ninguém entende direito esse jeito todo torto de amarmos e vivermos intensamente, nos consumindo com essa droga que se chama vida, ardendo com o peito em fogo, falando alto, batendo os pés e roendo as unhas, soltando um ou dois palavrões de vez em quando, chorando por sentir falta de alguém ou simplesmente por sentir, deixando a emoção sobrepor a razão. Mas somos meio sujos, me desculpe, mas de vez em quando parece que há algum tipo de deus sádico que deixa o mal viver, que o deixa habitar em nós. Nós brigamos, gritamos, discutimos e no fim sempre acabamos cuidando uns dos outros, rimos e choramos juntos, temos algo tão intenso e tão puro. Mais uma tragada para aliviar a dor, uma lanterna para dissipar o medo do escuro, um abraço apertado para afastar a solidão.  E no fim, estamos todos sozinhos com nossas memórias.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

O patrulheiro notívago

       De madrugada o único som que se ouve pelo bairro é o apito do patrulheiro notívago ecoando pelas janelas abertas, solitárias. E eu pensava que ela me encantou, eu sabia que me encantaria, então não quis colocar meu outro amor recente na gaveta, a ignorei, brinquei e a evitei tanto quanto pude, mas no dia em que passei embaixo da escada, no outro em que andei em sua direção sem enxergá-la, mas ela me via, foi inevitável que eu me rendesse, e eu sabia. Mas por saber não foi menos bonito, absorvi toda a sua energia num lapso de curiosidade, noutro de impaciência, noutro de indecisão. Sabia que cederia no instante em que ela executou aquele balé irresistível de prender os cabelos e revelar a nuca, aquilo me encanta, mas me encantou mais porque meus olhos contradisseram tudo aquilo o que meu pensamento havia determinado, minha mente sucumbia irracional e aqueles olhos que olhavam minha boca sedenta de riso só me perguntavam se nos falaríamos novamente.

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

A buscadora

   Ela caçava tudo com seus olhos ferinos de chacal faminto. Tinha a beleza arrebatadora, quase divina, mas não dava a mínima para isso, o importante mesmo era achar seu alvo. Procurava por nem sabe o que, mas vivia com as faces vincadas e os olhos atentos, despia-se do medo que nem sabia que tinha. Andava com passos felinos e quando menos se esperava, ela estava lá, quase sem ser percebida, à procura de algo. Não descansava enquanto não encontrasse, não dava o braço a torcer, não desistia de seu caminho. Dizia qualquer coisa desconexa e que ninguém entenderia sua busca. E não entendiam mesmo. Dizia que era sua missão, mas não acreditava nas estrelas, nem nos astros. Disse certo dia que foi a Serpente que lhe incumbiu de tal missão. Mas quando fui perguntar que tal Serpente era essa, ela já tinha sumido bem debaixo das minhas vistas.

No mar de mim

        Ela tinha um medo absurdo de se afogar, mas viu o mar e como que por encanto foi atraída por ele, colocou os pés: água fria, agradável. Depois foi entrando, quando a água estava na altura dos tornozelos, o mar começou a fazer movimentos estranhos, recuava, parou de chegar aos seus pés, então ela ia cada vez mais fundo para buscá-lo. Quando deu por si, a água estava na altura da cintura e não avançava para ela. De repente, retornou a avançar com força, com toda a força e ela foi sendo dominada. Correu para fora e o mar se acalmou. Não era possível que ela tivesse provocado tamanha turbulência. E então ela pensou que o mar engolia seus pensamentos e seus sentimentos. Sou eu, quem está revolto é meu ser, a tormenta que se agrava toda vez. Parou de pensar e entrou no mar calmo, que a essa altura lhe tirava os sentidos, e o barulho do mar, aquela música salgada invadia seus ouvidos e ela se afogava no mar de si que pensava existir.

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Castelo de areia

    Era fim de maio quando ela me mostrou tudo o que tinha sentido e vivido nos últimos dois ou três meses. Ela copiava cada passo, guardava cada lembrança e à medida em que eu ia revirando os papéis, ia mergulhando dentro de tudo o que ela havia vivido – e escrito. Eu me via ali dentro em determinadas linhas, mas não teria paciência para relatar cada detalhe como ela fez, não tenho mesmo. Ali eu via uma história de amor se iniciar e definhar. Eu a vi construir tudo aquilo e vi desmoronar feito castelo de areia que não resiste à força do mar. A vi levantar e cair, mas ela levanta de novo.  





quarta-feira, 17 de setembro de 2014


O lobo e a serpente

    Ao amanhecer apercebeu-se do que tinha se dado na noite anterior. Andava a  esgueirar-se inteira desconfiada de ter sido percebida sem perceber. Sabia que era mau tudo o que oferecia, bebia-lhe a própria peçonha. Num ato de loucura, o apressou a beber-lhe o sangue, então o Lobo rasgou a garganta da Serpente num rompante e no segundo seguinte o veneno escorria pelos olhos. Andava já fascinado pela destreza que tinha adquirido e matava por prazer, buscava a justiça e andava só. Andava a correr e corria até prender-se debaixo das garras do Leão e ser julgado pela Raposa. Percebeu então que ser Lobo e relapso não era assim, bem desconexo. Percebeu que a Serpente que não tinha força, que era vil e amaldiçoada. E morreu envenenado com o próprio orgulho.
  Lembra das 30 cartas que eu ingenuamente te escrevi mês passado? Pois então, descobri que em vez de lê-las, você as usava para enrolar seus cigarros e me tragava aos poucos e queimava tudo o que eu sentia. Mas você é um babaca, nem percebia que era a mim que você tragava, que era meu coração que entrava nos seus pulmões junto com a fumaça que contaminava seu corpo inteiro. E quando me soprava para fora já era ódio ao invés de amor.
     Esqueci de escrever que te odeio, que fui estúpida e você um tremendo cafajeste e isso é até bem clichê, clichê pra caralho, mas é verdade. A gente fica mesmo meio idiota quando ama. Mas eu não errei, que nada, eu estava sem meus óculos quando te escolhi, como poderia ver?
      A propósito, eu quero que você se dane.
    

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Aroldo Coelho da Silva Pinto



     Aroldo era muito conformista. Todos os dias levantava-se às sete da manhã, vestia as calças sempre em tons pastéis, a camisa branca de botões e mangas curtas, a gravata marrom listrada e os sapatos, sempre polidos antes de dormir. Ajustava as calças sempre para dois dedos abaixo do umbigo, colocava a camiseta sempre cinco centímetros para dentro das calças, abotoava o cinto sempre no terceiro furo, penteava o cabelo sempre no sentido horário. Levantava-se depois de oito horas exatas de sono, - era mais do que suficiente segundo ele – dava cinco passos até o banheiro e demorava os mesmos vinte minutos para se arrumar.
     Sentava-se à mesa sempre muito bem posto, ereto, com o guardanapo azul no colo, dobrava sempre a primeira ponta, movimentava os cereais na tigela sempre da esquerda para a direita. Quando saia para trabalhar, dava sempre um beijo no canto esquerdo da boca da esposa, que lhe entregava a pasta de camurça sempre deixada na mesa do lado da TV na sala.
     Aroldinho dizia que não queria ter filhos – só iam atrapalhar sua rotina impecável segundo ele. Ia ao trabalho e, em exatas oito horas estava de volta. Odiava animais – bagunçam tudo, só servem para bagunçar segundo ele. Tinha sempre os mesmos passos cadenciados, sempre o mesmo ritmo de trabalho. Chegava em casa, jantava, via TV na sala, ia para o quarto e tornava à rotina no dia seguinte. (Mas antes de dormir polia os sapatos, claro.) Aroldinho era até bem feliz assim.
     Mas a mulher de Aroldinho não era conformista. Nem o vizinho da casa na frente da sua. Quando tendo saído cedo do trabalho – e angustiado por isso – chegou em casa, viu a mulher aos beijos com Arnaldinho, (o vizinho descontraído, moreno, alto e sedutor da casa da frente) tomou um susto, mas escondeu-se num arbustinho e esperou Arnaldinho ir embora e sua mulher se recompor. Chegou e lá estava a mesa posta e deu-lhe um beijo no canto esquerdo da boca. Aroldinho tinha seu orgulho ferido, mas não ia se separar, seria uma mudança muito grande, não, nem pensar.
    Aroldinho era um corninho manso, e quando o trabalho acabava cedo ele se sentava no carro e esperava dar o horário de ir embora para não atrapalhar Arnaldinho e a esposa – ela podia ser feliz assim segundo ele.
     Mas sua mulher não aguentava mais a monotonia, já estava quase nos 30, queria filhos, um cachorro, um peixinho dourado que fosse. Queria que ele usasse a camisa para fora da calça ou beijasse o canto direito da sua boca de vez em quando. Pediu a separação.
      Aroldinho descabelou-se todo, chorava o dia inteiro e viu a mulher ir embora com Arnaldinho. Passou a usar jeans, camiseta e nem penteava mais o cabelo. Pensou até em suicidar-se, mas em vez disso comprou um cachorro.

Acasos



“Helena!” – ouvi uma voz máscula gritar meu nome.
      Estava sentada num quiosque à beira da praia e me virei para ver quem me chamava. Era um rapaz forte, bonito, sarado, corria descamisado, não reconheci, mas podia ser um ex-colega de classe, do trabalho, de uma festa, sabe-se lá. Me aprumei inteira, ajeitei o decote e deixei a manga da blusa caindo pelo ombro, ele continuava correndo.
      O moço era uma verdadeira beldade, sem barba e com o corpinho inteiro definido (do jeito que eu gosto) e quando corria, o shorts subia e mostrava aquelas pernas (e que pernas!).
      “Helena!” – gritou mais uma vez. Será que não percebeu que eu já o havia visto?
       Chegou perto de mim e parou, ofegou, apoiou as mãos nos joelhos e voltou a retesar o corpo bem ereto.
        “Moça, a senhora viu Helena, minha cadela? Ela é inteira branca, pit Bull, porte médio.” – quase caí da cadeira quando ele falou, não sabia se chorava ou ria da minha própria cara, mas ele parecia tão desesperado.
        “Não, desculpe, não vi nenhum cachorro por aqui ainda hoje.” – respondi.
         “Ah, obrigado, desculpe incomodar.”
         “Não tem problema.”
          E então o rapaz pôs-se novamente a correr e a gritar por Helena, a cadela. De costas era também muito bem feito, devo dizer, mas oh coincidência infeliz, viu.

Prezada Vida,


          Pare de ficar me dando esperanças, pare de dizer que toda vez que eu sonho com alguém, essa pessoa sente minha falta, que quando está insone talvez pense em mim. Olhe, Vida, não sou a pessoa mais frágil do mundo, mas isso machuca um pouco sabe, feito bater o mindinho em alguma quina, é. Mas relaxe, não ando fazendo cosplay de Bella Swan e um buraco não vai se abrir no meu peito toda vez que seu nome for pronunciado. Mas quando ouço isso meus olhos se enchem e meu coração se aviva. Então não, digo que não, esqueça, vá embora, mas o pensamento não me obedece e volta lá. Todo santo dia. Não sei o que você quer, Vida, mas talvez o problema seja eu, pode ser. Mas não tenho tempo para ficar me lamentando, eu só vim dizer que você está me cansando, escolha melhor suas palavras.

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Vai, vagabundo



   Vai vagabundo, apaixonar-se por outra dessas mulheres de quinta que você encontra nessas esquinas escuras. Vai morrer de amor pela trigésima vez essa semana. Vai comprar o perfume barato que você acha que ela adora. Vai guardar uma dessas garrafas de vinho fuleiro que tanto aguça o paladar bruto dela. Afinal, para saborear-te, ela não pode ser mesmo exigente.
    Vai guardar o dinheiro, que era pra comprar teu remédio, para dar a ela um presentinho, uma bijuteria de capa de revista. Vai morrer feito o cachorro que é, jogado pelos cantos. Vai viciado, arrasar-se no vício. Vai dizer a ela que seu cheiro o embriaga tanto quanto o ópio que luta para comprar.
    Vai dizer que não consegue arrumar um emprego porque a boemia não sai de você. Vai dizer que comprou um presente mês passado, que lembrou dela quando viu tal peça, mas ela vai recusar tudo, afinal, você não tem dinheiro para o programa.

Direito inconstitucional à loucura



     Há quase quatro anos o direito constitucional à felicidade foi decretado. Agora é garantido por lei que busquem sua razão para viver esteja ela onde estiver. O que eu quero dizer com isso? Nem eu sei, veja só.
     Eu quero dizer que todos estes que aprovaram essa lei – que muitos (inclusive eu) dizem ser tola – deveriam ter se dado também ao direito à loucura. Digo, todos aqueles que se dizem – ou são taxados como tal – loucos (ou quase) são mais felizes, mas eles não ligam para essas definições prontas redigidas com normas da ABNT, que nada. Isso tudo é patético. Eles usam esse rótulo chulo para se dar ao luxo de serem excêntricos, bêbados, egoístas e drogados, de serem eles mesmos.
     Eu, por exemplo, estou usando a mesma camiseta há três dias, mas você não vai ficar chocado ou me reprovar, não. Você vai rir e dizer que sou uma porra louca mesmo, que não tenho mais o que fazer.
     Mas te digo que escrevi tudo isso plenamente sóbria e é verdade. Bebendo sobriedade de canudinho e ela fazia queimar minha garganta. Adorava escolher os canudos pela cor, sempre os combinava com os copos, agora são todos padronizados e sem graça. Comparo canudos a pessoas de vez em quando.
     Já é hora de acabar. E eu recomendo “então queres ser escritor?” de Charles Bukowski, uma loucura deliciosa de sarjeta. Esse homem define muito bem. Dê-se ao direito de extrapolar a realidade de vez em quando, mas não se mate, por favor. E se perguntarem, eu negarei que disse qualquer coisa.