segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Aroldo Coelho da Silva Pinto



     Aroldo era muito conformista. Todos os dias levantava-se às sete da manhã, vestia as calças sempre em tons pastéis, a camisa branca de botões e mangas curtas, a gravata marrom listrada e os sapatos, sempre polidos antes de dormir. Ajustava as calças sempre para dois dedos abaixo do umbigo, colocava a camiseta sempre cinco centímetros para dentro das calças, abotoava o cinto sempre no terceiro furo, penteava o cabelo sempre no sentido horário. Levantava-se depois de oito horas exatas de sono, - era mais do que suficiente segundo ele – dava cinco passos até o banheiro e demorava os mesmos vinte minutos para se arrumar.
     Sentava-se à mesa sempre muito bem posto, ereto, com o guardanapo azul no colo, dobrava sempre a primeira ponta, movimentava os cereais na tigela sempre da esquerda para a direita. Quando saia para trabalhar, dava sempre um beijo no canto esquerdo da boca da esposa, que lhe entregava a pasta de camurça sempre deixada na mesa do lado da TV na sala.
     Aroldinho dizia que não queria ter filhos – só iam atrapalhar sua rotina impecável segundo ele. Ia ao trabalho e, em exatas oito horas estava de volta. Odiava animais – bagunçam tudo, só servem para bagunçar segundo ele. Tinha sempre os mesmos passos cadenciados, sempre o mesmo ritmo de trabalho. Chegava em casa, jantava, via TV na sala, ia para o quarto e tornava à rotina no dia seguinte. (Mas antes de dormir polia os sapatos, claro.) Aroldinho era até bem feliz assim.
     Mas a mulher de Aroldinho não era conformista. Nem o vizinho da casa na frente da sua. Quando tendo saído cedo do trabalho – e angustiado por isso – chegou em casa, viu a mulher aos beijos com Arnaldinho, (o vizinho descontraído, moreno, alto e sedutor da casa da frente) tomou um susto, mas escondeu-se num arbustinho e esperou Arnaldinho ir embora e sua mulher se recompor. Chegou e lá estava a mesa posta e deu-lhe um beijo no canto esquerdo da boca. Aroldinho tinha seu orgulho ferido, mas não ia se separar, seria uma mudança muito grande, não, nem pensar.
    Aroldinho era um corninho manso, e quando o trabalho acabava cedo ele se sentava no carro e esperava dar o horário de ir embora para não atrapalhar Arnaldinho e a esposa – ela podia ser feliz assim segundo ele.
     Mas sua mulher não aguentava mais a monotonia, já estava quase nos 30, queria filhos, um cachorro, um peixinho dourado que fosse. Queria que ele usasse a camisa para fora da calça ou beijasse o canto direito da sua boca de vez em quando. Pediu a separação.
      Aroldinho descabelou-se todo, chorava o dia inteiro e viu a mulher ir embora com Arnaldinho. Passou a usar jeans, camiseta e nem penteava mais o cabelo. Pensou até em suicidar-se, mas em vez disso comprou um cachorro.

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