segunda-feira, 8 de setembro de 2014

O leão e a raposa



    Aquieta-te, Raposa, aquieta este espírito faceiro que mora dentro deste teu corpo. És pequena, Raposa, és fraca e não defende-te de nada, apenas esconde-te das coisas, acovarda-te a cada passo.
    Cala-te, Leão, cala-te. És grande, és forte, mas não destrói-me a astúcia, não destrói-me a elevação e a superioridade. Sou mesmo pequena, mas não conhece-me a mim neste meu mundo etéreo, vês meu corpo, Leão, vês que facilmente me dilacera a garganta, que sou presa fácil, mas és tu, Leão, que vives preso neste corpo imenso. Tu és prisioneiro de ti mesmo.
    Cala-te a ti, Raposa, que não falas coisa com coisa, que andas a divagar por aí dentro destes teus planos, dentro desta tua loucura, destes olhos diáfanos de bruxa. Cala esta tua língua ferina antes que eu rasgue tua garganta.
    Pois rasga-me, Leão, precisas provar que tens força? Tu és limitado  à matéria, és concebido em ignorância, és fraco em oratória, acovarda-te tu a me enfrentar com palavras. Sabes que sou concebida de sapiência, que não há mácula nestes meus argumentos e não refutas-me. Pois, desce-me sobre a fronte a pata esquerda, Leão.
     Descer-te-ei a pata direita, que pesa mais que teu corpo inteiro, Raposa.
     E ainda dizes que acovardo-me? Não me escondo, desce-me as patas e mata a astúcia. Junta-te a mim, Leão. Completamo-nos. Mata-me e morres engasgado com tua própria ignorância. Mata-me o corpo que me libertas do físico, da limitação desta terra.
     Não há outro senão o físico, Raposa, és sonhadora, és esculpida em devaneios. Tu sabes que não há, sabes que protejo e que mato, mas não é necessário. Conta-me, Raposa, tudo o que sabes.
      Continuarás a matar e a ter sede de sangue, Leão, pois é de tua natureza que o sintas, mas controlarás a ti.
      Tenho desconhecimento desta tua ciência, Raposa. Se me enganas ceifo-te a vida e bebo-te o sangue.
       Pois bebe-me, Leão, afoga tua alma seca em mim, mata esta sede que seca teus olhos. Afia tuas garras e expõe estes punhais que chamas de dentes.
       Ouves o que digo, Raposa, aquieta-te, aquieta-te e guarda esta língua antes que morras de verdade.
        Não tenho medo, Leão, não conheci o medo e nunca topei com ele durante minha jornada.
       Escuta-me, Raposa, não te faças de arrogante.
       Cala esta tua boca grande, Leão, não sabes de nada.
       Aquieta-te, Raposa, aquieta-te.

   

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