quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Desertor de vidas alheias



Carlos Magno era um rapaz cheio de incertezas, magrelo, destemperado, tímido e sensato. Nunca se sentia bem em lugar nenhum, com ninguém. A impressão que tinha era a de estar vivendo uma vida que não era dele, como quando a gente usa roupa emprestada e simplesmente se sente mal. Adorava os desenhos do Millôr e queria ser escritor quando crescesse. Completou seus 18 anos e não sabia o que fazer da vida, não era aquele curso o seu, nem aquela retórica toda, os trejeitos, os poemas desajeitados. Adquiriu, pela angústia, alguns vícios e percebeu que estes realmente eram dele. Entrava e saia das vidas das pessoas como quem entra e sai do supermercado errado porque não tinha o que buscava ou porque se enganou com o endereço. Trazia um violão velho e desafinado, mas o tocava com esmero, percebia a vida passar a cada cinco minutos que demorava para tragar um cigarro e, sem mais nem menos ia embora como quem se esgota do ambiente, de não estar em casa, de nunca se sentir confortável com nada. Percebe então que sua casa é aonde seus pés tocam. E só. Aquilo o que está a sabe-se-lá quantos quilômetros não é seu, tampouco é outro possuidor de seu carisma e de sua escrita frouxa. Sua mãe lhe dera o nome por causa do imperador, mas Magno não era assim tão grande, era medíocre até, bem comum.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Nômade do asfalto

     Milena tinha 18 anos, cursava psicologia e alimentava um desejo que pelo menos metade das pessoas com a idade dela também tem: cair no mundo sem rumo. Ela dizia que a faculdade a estava deixando louca, mas não sabia o que fazer, então continuava lá, enlouquecendo. Sua mãe não apoiava a tal viagem de autoconhecimento que ela propunha e quase nunca ouvia.
    Milena se viu presa num mundo cheio de absurdos, era sensível, se envolvia demais com as coisas e morria um pouco a cada traição que percebia – por parte de quem quer que fosse, estava desacreditada.
      Depois de três meses, ela tirou a carteira de habilitação e decidiu pôr seu plano em prática, trancou a faculdade, arrumou a mala e deu o fora no meio da noite com o carro do pai, deixou o celular e um bilhete para a mãe.
      -- Milena está louca, Arnaldo, inventava essas ideias de ir-se embora, veja se tem cabimento. – Ela imaginava sua mãe falando. – Deve ter sido essa faculdade, essas companhias, eu avisei, Arnaldo, eu avisei.
      -- Deixe de tolice, Helena, nossa filha já é crescida e anda com as próprias pernas, se disse que estará bem, ela estará, agora durma.
      -- Mas Arnaldo...
      -- Além disso, ela já é maior de idade, agora durma.
      Na saída da cidade pegou o caminho esquerdo, levou a playlist preferida e ia vendo como a cidade era bonita à noite com todos aqueles desenhos que as luzes produziam nos prédios e na rua. Milena sempre preferira a noite e por algum motivo detestava o pôr do sol.
      Dirigiu por uns trezentos quilômetros e parou para ver o sol nascer, depois ia arrumar um mapa e conhecer o que lhe desse na telha. Iria encontrar um velho sábio em cada parada, apaixonar-se por um estrangeiro, ter o coração partido, cantar para as estrelas, dançar na chuva, curar-se, chorar de saudades, escrever o primeiro diário e se descobriria, saberia o que fazer quando voltasse.
       A sós com ela mesma, Milena nunca se sentiu tão bem acompanhada.

      

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Escrita criativa

    O senhor nos pediu para listar dez acontecimentos e escolher um deles para falar a respeito, como se faz isso? Semana passada eu conheci uma banda nova que temperou a minha vida com um pouco mais de amor por mim, conheci um homem que num aperto de mão me apresentou um novo mundo, vi que uma estrela que há muito eu tentava resgatar com as mãos esfarelou-se no ar e que dentro de mim uma outra se apagou, vi metade do rio de angústia que corria dentro de mim fluir para fora e ser substituído por uma plenitude densa, vi o carinho daquela garota quase se materializar por mim. Então, como eu poderia falar de um desses eventos isolados quando todos eles constroem o que eu sou hoje e me fazem diferente do que eu era semana passada?

domingo, 23 de novembro de 2014

Trilha Sonora da Vida Real

      Adoro o jeito como esses fones de ouvido me transportam para dentro do universo dos filmes que eu assisto. Exatamente a mesma coisa, aquela música deliciosa de fundo, os passos cadenciados, os passantes, uns enamorados aqui e ali transitando e eu dentro daqueles fones, presa numa plenitude, num silêncio, numa felicidade pura que nasce desse moço que diz, com essa voz suave e esses olhos azuis para eu seguir meu coração. Então me imagino dentro de um carro qualquer, dirigindo até a sua casa pra dizer que senti sua falta, que quase morri de saudades, que pode me mandar embora que eu não vou, que vou ficar aqui e dormir na sua porta se for preciso.  Tem as luzes amarelas dos postes que me iluminam pela metade, que incandescem meu coração. Eu olho para baixo e vejo os mesmos pés de sempre no ritmo da música; só que o cadarço está desamarrado, mas não me importo. Adoro ver os desenhos que se formam nas luzes à noite e outro verso me obriga a olhar para as estrelas, aí eu me lembro de você de novo, o moço diz mais uma vez para eu seguir meu coração e a única saída que me resta é estar aqui, dentro de cada uma dessas palavras.

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Rudeza de poesia

Se a vida tivesse sido mais branda, iria querer ser poeta.

Não vejo poesia em rudeza.

Eu vejo. Olhe aquelas mãos calejadas, os olhos sofridos, as rugas de sol, as lágrimas que quase não se deixam ver, que se escondem para poderem se revelar, ouça a música melancólica que ecoa do rádio à pilha e sinta. Feche esses olhos e respire, inspire profundamente e absorva a graça desse ambiente, sinta a poesia dolorosa que desce por sobre as ferramentas, a mesma música que soa no mesmo horário sem faltar uma vez sequer, uma música atrelada a uma fé e uma crença de que dias melhores virão, que o sofrimento um dia se abranda, que as certezas, qualquer dia desses se desfazem e a alma dura será lapidada. Não me venha dizer que aqui não há poesia, você que não enxerga, mas há, em todos os cantos, nas quinas dos móveis, nos repentes e na saciedade do corpo. Eu estou vendo agora que o que há aqui são mais do que pedras, mais do que a rudeza que você vê, isto é só uma casca. Retira a venda que lhe tapa os olhos da alma e enxerga, vê como eu vejo.


Convenceu-me.

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Quando ela se foi

      Quando ela foi embora eu pensei que ia morrer, mas ainda estou aqui, vivo. Mas, por algum tempo eu estive morto, por um bom tempo. Eu andava, me movimentava, mas não tinha vontade, não, eu estava morto. Quando ela se foi, foi exatamente como quando eu quebrei aquele jarro caro da mamãe, eu não sabia o que fazer, estava ali espatifado no chão e eu só sentei e chorei. Chorei até não poder mais, até minhas mandíbulas doerem, meus olhos queimarem e eu estar tão cansado que simplesmente adormeci. Quando ela se foi, a brisa doía, os passos, as flores, o pôr-do-sol. No dia em que ela partiu, meu coração pesou no peito e minhas mãos não suportavam a dor que lhes era oferecida assim. Quando ela se foi eu era um menino, um poeta sonhador, um rapazinho com um par de calças, uns sapatos mais ou menos e meia dúzia de moedas no bolso. Quando ela se foi eu não escrevia como agora. Quando ela se foi eu rasguei tudo o que tinha e me desfiz, me matei ali dentro e me tornei, assim sem querer, um homem, um desgraçado, desses tipos que não valem um tostão furado, um cafajeste, já sabia do coração vagabundo que tinha, mas quando ela se foi ele não via mais razão para alimentar virtudes. Quando ela se foi o que restou foram migalhas, pois o que era meu já não era. Quando ela partiu, naquela madrugada, eu morri.

domingo, 2 de novembro de 2014

Rodriguinho

“E aí, man?”
Virei para ver quem era e vi o Rodriguinho com um cigarrinho pendendo no canto da boca, metido numa calça de couro que sabe lá Deus como foi parar ali.
“Mas que diabo é isso agora, Rodrigo, virou bicha?”
“Que isso, man, deixa de pilha, to na mó vibe aqui. Conheci umas mina que disseram que isso era o que tava na moda agora.” – abriu a jaqueta e girou feito malandro pra eu ver a roupa inteira. Rodriguinho  falava com um sotaque afetado, puxando os esses e demorando nas vogais.
“Moda? Pra mim isso é coisa de viado e pronto, olha essas calças, pelamor, Rodrigo. Até o sotaque tu afeta.”
 “Colé irmão, ta dando uma de moralista agora? Tu nunca foi dessa.”
“Moralista não, sou macho.”
“Um puto moralista e homofóbico, é o que tu é, man.”
“Meu Deus, Rodrigo, desde quando tu é viado?”
“Relaxa aí, Brô, que o que eu faço é cultuar o amor e não o falso moralismo, deixa de treta e vem comigo que te mostro umas gatas.”
   Relutei, mas acabei indo.
“Que diabo é isso aqui, Rodrigo? Tamo no Woodstock?”
“Ah, man, bem que a gente queria, mas não tem a Janis nem o Jimmy, aí é foda, mas a gente coloca os discos, pô. Toca que é uma beleza e os cara se amarram.”
“Ai meu pai, minha vó que tava certa, esse mundo tá perdido mesmo.”


segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Das janelas

     As janelas vazias solitárias, solidárias ao poeta inquieto e insone que se debruça sobre a oitava folha rabiscada com a loucura que viveu nas últimas horas, embebida em lágrimas, da qual nem sentia o fervor. O jovem rapaz descabelava-se, estava sozinho e na solidão encontrava sua morada pois não precisava conter sua insanidade e a espalhava por todo o espaço. Estavam loucos os livros, os sofás, a cama, os talheres, especialmente as facas. Não precisava e transcendia na transfusão do seu sangue para o papel, da agonia para os versos, da loucura para os sonetos, do devaneio para as estrofes, da abstração para a prosa e o romance.

domingo, 26 de outubro de 2014

As cláusulas de Anne Rich

    Era uma advogadazinha recém formada, de estatura média, cabelos cor de cobre e um humor péssimo. “Cale a boca, Duncan!” foi o que disse pouco antes da primeira entrevista de emprego. Vestida com o terninho preto, de salto, muito bem maquiada, insegura demais, mas pisava firme pra não deixar isso transparecer. Ao acaso, percebeu que o entrevistador era o amor de sua vida. Mas vejam que inconveniente é o amor. Por um instante desafixou os olhos dele e colocou-os no chão de madeira. Repare só se ele percebe o rubor,  se viesse a perguntar, ela diria que era do blush que passou apressada e não percebeu o exagero, ele nem questionaria. Prosseguindo com a entrevista, o rapaz de cabelos ondulados e seus trinta e poucos anos perguntava suas qualificações enquanto ela se perguntava se ele era solteiro. “Não, que nada, bonito desse jeito, com esse sorriso, deve ter alguma sortuda que o laçou. Ou pode ser gay, é triste, mas é uma possibilidade. Ai, não, gay não.” E ele seguia desnorteado enquanto ela o olhava sem responder. “A senhora não entendeu a pergunta?” “Ah, desculpe, é senhorita.” Ele ofereceu água, ela bebeu e marcou o copo com o batom bordô. Ele disse que compreendia o nervosismo e então começaram a conversar sobre a faculdade, depois o ensino médio, fundamental, os amigos de infância, as broncas que levavam das professoras e no fim da entrevista, tinham um jantar marcado. Anne saiu de lá satisfeita, não tinha conseguido o emprego, mas garantira a vaga com o amor de sua vida. E, ao ir embora, até sorriu pro Duncan.

domingo, 12 de outubro de 2014

         Apenas três dias? Sim. Que se passa pelos lados de cá? Pois conto-lhe o que me contaram, que era preciso, que quase aos prantos deitou palavras desferidas feito navalhas esperando acertar, mas nem raspou. Nem de leve? Nem de leve, foi-se achando que estava tudo bem e deveras estava. Mas ela não sabia, sabia? Que nada, era tapada feito uma porta, que galhofas. Qual seria minha surpresa se fosse ao contrário, já não queria acabar com tudo? Querer queria, mas não sabia como. Fez-me favor. Tive outras dúzias daqueles sonhos de terror. Que dizem? Nem sei, mas me andam a atormentar. De dia à noite. Não dormes então. É, deixo-te livre para partir. Ao menos um de nós precisa de um final feliz. 

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Diz-se

      Diz-se que ela está fadada a um fogo infernal, do qual não se tem controle, um fogo que é amor, paixão e tudo, que, quase literalmente, arde, pesa e sangra no peito, que revira o estômago. Diz-se de um amor profano, que é impuro, mas intenso e cheio de pureza, que é verdade que, de novo, arde. Que é dor que se rompe, que são dedos que se entrelaçam, que são colos que se unem, que são seios que se encontram. Diz-se o que há de dizer e diz-se o que diz o povo, que quase nada sabe e muito fala. Diz-se do amor que é pecado, que pecado é amor? Hediondo, crime hediondo. Isso não se faz, verdadeiro atentado às células, verdadeira fadiga. Novo ser não nasce, mas amor transcende e almas se juntam e morrem à espera uma da outra, são duas almas, são só almas e amor é fogo. Fogo que destrói, que faz renascer, que mata.


segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Memórias

      Ninguém entende direito esse jeito todo torto de amarmos e vivermos intensamente, nos consumindo com essa droga que se chama vida, ardendo com o peito em fogo, falando alto, batendo os pés e roendo as unhas, soltando um ou dois palavrões de vez em quando, chorando por sentir falta de alguém ou simplesmente por sentir, deixando a emoção sobrepor a razão. Mas somos meio sujos, me desculpe, mas de vez em quando parece que há algum tipo de deus sádico que deixa o mal viver, que o deixa habitar em nós. Nós brigamos, gritamos, discutimos e no fim sempre acabamos cuidando uns dos outros, rimos e choramos juntos, temos algo tão intenso e tão puro. Mais uma tragada para aliviar a dor, uma lanterna para dissipar o medo do escuro, um abraço apertado para afastar a solidão.  E no fim, estamos todos sozinhos com nossas memórias.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

O patrulheiro notívago

       De madrugada o único som que se ouve pelo bairro é o apito do patrulheiro notívago ecoando pelas janelas abertas, solitárias. E eu pensava que ela me encantou, eu sabia que me encantaria, então não quis colocar meu outro amor recente na gaveta, a ignorei, brinquei e a evitei tanto quanto pude, mas no dia em que passei embaixo da escada, no outro em que andei em sua direção sem enxergá-la, mas ela me via, foi inevitável que eu me rendesse, e eu sabia. Mas por saber não foi menos bonito, absorvi toda a sua energia num lapso de curiosidade, noutro de impaciência, noutro de indecisão. Sabia que cederia no instante em que ela executou aquele balé irresistível de prender os cabelos e revelar a nuca, aquilo me encanta, mas me encantou mais porque meus olhos contradisseram tudo aquilo o que meu pensamento havia determinado, minha mente sucumbia irracional e aqueles olhos que olhavam minha boca sedenta de riso só me perguntavam se nos falaríamos novamente.

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

A buscadora

   Ela caçava tudo com seus olhos ferinos de chacal faminto. Tinha a beleza arrebatadora, quase divina, mas não dava a mínima para isso, o importante mesmo era achar seu alvo. Procurava por nem sabe o que, mas vivia com as faces vincadas e os olhos atentos, despia-se do medo que nem sabia que tinha. Andava com passos felinos e quando menos se esperava, ela estava lá, quase sem ser percebida, à procura de algo. Não descansava enquanto não encontrasse, não dava o braço a torcer, não desistia de seu caminho. Dizia qualquer coisa desconexa e que ninguém entenderia sua busca. E não entendiam mesmo. Dizia que era sua missão, mas não acreditava nas estrelas, nem nos astros. Disse certo dia que foi a Serpente que lhe incumbiu de tal missão. Mas quando fui perguntar que tal Serpente era essa, ela já tinha sumido bem debaixo das minhas vistas.

No mar de mim

        Ela tinha um medo absurdo de se afogar, mas viu o mar e como que por encanto foi atraída por ele, colocou os pés: água fria, agradável. Depois foi entrando, quando a água estava na altura dos tornozelos, o mar começou a fazer movimentos estranhos, recuava, parou de chegar aos seus pés, então ela ia cada vez mais fundo para buscá-lo. Quando deu por si, a água estava na altura da cintura e não avançava para ela. De repente, retornou a avançar com força, com toda a força e ela foi sendo dominada. Correu para fora e o mar se acalmou. Não era possível que ela tivesse provocado tamanha turbulência. E então ela pensou que o mar engolia seus pensamentos e seus sentimentos. Sou eu, quem está revolto é meu ser, a tormenta que se agrava toda vez. Parou de pensar e entrou no mar calmo, que a essa altura lhe tirava os sentidos, e o barulho do mar, aquela música salgada invadia seus ouvidos e ela se afogava no mar de si que pensava existir.

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Castelo de areia

    Era fim de maio quando ela me mostrou tudo o que tinha sentido e vivido nos últimos dois ou três meses. Ela copiava cada passo, guardava cada lembrança e à medida em que eu ia revirando os papéis, ia mergulhando dentro de tudo o que ela havia vivido – e escrito. Eu me via ali dentro em determinadas linhas, mas não teria paciência para relatar cada detalhe como ela fez, não tenho mesmo. Ali eu via uma história de amor se iniciar e definhar. Eu a vi construir tudo aquilo e vi desmoronar feito castelo de areia que não resiste à força do mar. A vi levantar e cair, mas ela levanta de novo.  





quarta-feira, 17 de setembro de 2014


O lobo e a serpente

    Ao amanhecer apercebeu-se do que tinha se dado na noite anterior. Andava a  esgueirar-se inteira desconfiada de ter sido percebida sem perceber. Sabia que era mau tudo o que oferecia, bebia-lhe a própria peçonha. Num ato de loucura, o apressou a beber-lhe o sangue, então o Lobo rasgou a garganta da Serpente num rompante e no segundo seguinte o veneno escorria pelos olhos. Andava já fascinado pela destreza que tinha adquirido e matava por prazer, buscava a justiça e andava só. Andava a correr e corria até prender-se debaixo das garras do Leão e ser julgado pela Raposa. Percebeu então que ser Lobo e relapso não era assim, bem desconexo. Percebeu que a Serpente que não tinha força, que era vil e amaldiçoada. E morreu envenenado com o próprio orgulho.
  Lembra das 30 cartas que eu ingenuamente te escrevi mês passado? Pois então, descobri que em vez de lê-las, você as usava para enrolar seus cigarros e me tragava aos poucos e queimava tudo o que eu sentia. Mas você é um babaca, nem percebia que era a mim que você tragava, que era meu coração que entrava nos seus pulmões junto com a fumaça que contaminava seu corpo inteiro. E quando me soprava para fora já era ódio ao invés de amor.
     Esqueci de escrever que te odeio, que fui estúpida e você um tremendo cafajeste e isso é até bem clichê, clichê pra caralho, mas é verdade. A gente fica mesmo meio idiota quando ama. Mas eu não errei, que nada, eu estava sem meus óculos quando te escolhi, como poderia ver?
      A propósito, eu quero que você se dane.
    

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Aroldo Coelho da Silva Pinto



     Aroldo era muito conformista. Todos os dias levantava-se às sete da manhã, vestia as calças sempre em tons pastéis, a camisa branca de botões e mangas curtas, a gravata marrom listrada e os sapatos, sempre polidos antes de dormir. Ajustava as calças sempre para dois dedos abaixo do umbigo, colocava a camiseta sempre cinco centímetros para dentro das calças, abotoava o cinto sempre no terceiro furo, penteava o cabelo sempre no sentido horário. Levantava-se depois de oito horas exatas de sono, - era mais do que suficiente segundo ele – dava cinco passos até o banheiro e demorava os mesmos vinte minutos para se arrumar.
     Sentava-se à mesa sempre muito bem posto, ereto, com o guardanapo azul no colo, dobrava sempre a primeira ponta, movimentava os cereais na tigela sempre da esquerda para a direita. Quando saia para trabalhar, dava sempre um beijo no canto esquerdo da boca da esposa, que lhe entregava a pasta de camurça sempre deixada na mesa do lado da TV na sala.
     Aroldinho dizia que não queria ter filhos – só iam atrapalhar sua rotina impecável segundo ele. Ia ao trabalho e, em exatas oito horas estava de volta. Odiava animais – bagunçam tudo, só servem para bagunçar segundo ele. Tinha sempre os mesmos passos cadenciados, sempre o mesmo ritmo de trabalho. Chegava em casa, jantava, via TV na sala, ia para o quarto e tornava à rotina no dia seguinte. (Mas antes de dormir polia os sapatos, claro.) Aroldinho era até bem feliz assim.
     Mas a mulher de Aroldinho não era conformista. Nem o vizinho da casa na frente da sua. Quando tendo saído cedo do trabalho – e angustiado por isso – chegou em casa, viu a mulher aos beijos com Arnaldinho, (o vizinho descontraído, moreno, alto e sedutor da casa da frente) tomou um susto, mas escondeu-se num arbustinho e esperou Arnaldinho ir embora e sua mulher se recompor. Chegou e lá estava a mesa posta e deu-lhe um beijo no canto esquerdo da boca. Aroldinho tinha seu orgulho ferido, mas não ia se separar, seria uma mudança muito grande, não, nem pensar.
    Aroldinho era um corninho manso, e quando o trabalho acabava cedo ele se sentava no carro e esperava dar o horário de ir embora para não atrapalhar Arnaldinho e a esposa – ela podia ser feliz assim segundo ele.
     Mas sua mulher não aguentava mais a monotonia, já estava quase nos 30, queria filhos, um cachorro, um peixinho dourado que fosse. Queria que ele usasse a camisa para fora da calça ou beijasse o canto direito da sua boca de vez em quando. Pediu a separação.
      Aroldinho descabelou-se todo, chorava o dia inteiro e viu a mulher ir embora com Arnaldinho. Passou a usar jeans, camiseta e nem penteava mais o cabelo. Pensou até em suicidar-se, mas em vez disso comprou um cachorro.

Acasos



“Helena!” – ouvi uma voz máscula gritar meu nome.
      Estava sentada num quiosque à beira da praia e me virei para ver quem me chamava. Era um rapaz forte, bonito, sarado, corria descamisado, não reconheci, mas podia ser um ex-colega de classe, do trabalho, de uma festa, sabe-se lá. Me aprumei inteira, ajeitei o decote e deixei a manga da blusa caindo pelo ombro, ele continuava correndo.
      O moço era uma verdadeira beldade, sem barba e com o corpinho inteiro definido (do jeito que eu gosto) e quando corria, o shorts subia e mostrava aquelas pernas (e que pernas!).
      “Helena!” – gritou mais uma vez. Será que não percebeu que eu já o havia visto?
       Chegou perto de mim e parou, ofegou, apoiou as mãos nos joelhos e voltou a retesar o corpo bem ereto.
        “Moça, a senhora viu Helena, minha cadela? Ela é inteira branca, pit Bull, porte médio.” – quase caí da cadeira quando ele falou, não sabia se chorava ou ria da minha própria cara, mas ele parecia tão desesperado.
        “Não, desculpe, não vi nenhum cachorro por aqui ainda hoje.” – respondi.
         “Ah, obrigado, desculpe incomodar.”
         “Não tem problema.”
          E então o rapaz pôs-se novamente a correr e a gritar por Helena, a cadela. De costas era também muito bem feito, devo dizer, mas oh coincidência infeliz, viu.

Prezada Vida,


          Pare de ficar me dando esperanças, pare de dizer que toda vez que eu sonho com alguém, essa pessoa sente minha falta, que quando está insone talvez pense em mim. Olhe, Vida, não sou a pessoa mais frágil do mundo, mas isso machuca um pouco sabe, feito bater o mindinho em alguma quina, é. Mas relaxe, não ando fazendo cosplay de Bella Swan e um buraco não vai se abrir no meu peito toda vez que seu nome for pronunciado. Mas quando ouço isso meus olhos se enchem e meu coração se aviva. Então não, digo que não, esqueça, vá embora, mas o pensamento não me obedece e volta lá. Todo santo dia. Não sei o que você quer, Vida, mas talvez o problema seja eu, pode ser. Mas não tenho tempo para ficar me lamentando, eu só vim dizer que você está me cansando, escolha melhor suas palavras.