Carlos Magno era um
rapaz cheio de incertezas, magrelo, destemperado, tímido e sensato. Nunca se
sentia bem em lugar nenhum, com ninguém. A impressão que tinha era a de estar
vivendo uma vida que não era dele, como quando a gente usa roupa emprestada e simplesmente
se sente mal. Adorava os desenhos do Millôr e queria ser escritor quando
crescesse. Completou seus 18 anos e não sabia o que fazer da vida, não era
aquele curso o seu, nem aquela retórica toda, os trejeitos, os poemas
desajeitados. Adquiriu, pela angústia, alguns vícios e percebeu que estes
realmente eram dele. Entrava e saia das vidas das pessoas como quem entra e sai
do supermercado errado porque não tinha o que buscava ou porque se enganou com
o endereço. Trazia um violão velho e desafinado, mas o tocava com esmero,
percebia a vida passar a cada cinco minutos que demorava para tragar um cigarro
e, sem mais nem menos ia embora como quem se esgota do ambiente, de não estar
em casa, de nunca se sentir confortável com nada. Percebe então que sua casa é
aonde seus pés tocam. E só. Aquilo o que está a sabe-se-lá quantos quilômetros
não é seu, tampouco é outro possuidor de seu carisma e de sua escrita frouxa. Sua
mãe lhe dera o nome por causa do imperador, mas Magno não era assim tão grande,
era medíocre até, bem comum.
Não escrevo poesia, o título foi só um trocadilho legal que eu achei, mas pode procurar os versos brancos dentro da minha prosa. Aviso logo que este blog abriga conteúdo sentimental intenso, então esteja em dia com o seu cardiologista antes de lê-lo. Aviso também que sou apenas responsável por aquilo que escrevo, interprete como lhe convier. Quando crescer quero ser uma raposa, por hora sou apenas uma menina.
quarta-feira, 10 de dezembro de 2014
segunda-feira, 8 de dezembro de 2014
Nômade do asfalto
Milena tinha 18
anos, cursava psicologia e alimentava um desejo que pelo menos metade das
pessoas com a idade dela também tem: cair no mundo sem rumo. Ela dizia que a
faculdade a estava deixando louca, mas não sabia o que fazer, então continuava
lá, enlouquecendo. Sua mãe não apoiava a tal viagem de autoconhecimento que ela
propunha e quase nunca ouvia.
Milena se viu
presa num mundo cheio de absurdos, era sensível, se envolvia demais com as
coisas e morria um pouco a cada traição que percebia – por parte de quem quer
que fosse, estava desacreditada.
Depois de três
meses, ela tirou a carteira de habilitação e decidiu pôr seu plano em prática,
trancou a faculdade, arrumou a mala e deu o fora no meio da noite com o carro
do pai, deixou o celular e um bilhete para a mãe.
-- Milena está
louca, Arnaldo, inventava essas ideias de ir-se embora, veja se tem cabimento.
– Ela imaginava sua mãe falando. – Deve ter sido essa faculdade, essas
companhias, eu avisei, Arnaldo, eu avisei.
-- Deixe de
tolice, Helena, nossa filha já é crescida e anda com as próprias pernas, se
disse que estará bem, ela estará, agora durma.
-- Mas
Arnaldo...
-- Além disso,
ela já é maior de idade, agora durma.
Na saída da
cidade pegou o caminho esquerdo, levou a playlist
preferida e ia vendo como a cidade era bonita à noite com todos aqueles
desenhos que as luzes produziam nos prédios e na rua. Milena sempre preferira a
noite e por algum motivo detestava o pôr do sol.
Dirigiu por uns
trezentos quilômetros e parou para ver o sol nascer, depois ia arrumar um mapa
e conhecer o que lhe desse na telha. Iria encontrar um velho sábio em cada
parada, apaixonar-se por um estrangeiro, ter o coração partido, cantar para as
estrelas, dançar na chuva, curar-se, chorar de saudades, escrever o primeiro
diário e se descobriria, saberia o que fazer quando voltasse.
A sós com ela
mesma, Milena nunca se sentiu tão bem acompanhada.
quarta-feira, 26 de novembro de 2014
Escrita criativa
O senhor nos pediu para listar dez acontecimentos e escolher um deles para falar a respeito, como se faz isso? Semana passada eu conheci uma banda nova que temperou a minha vida com um pouco mais de amor por mim, conheci um homem que num aperto de mão me apresentou um novo mundo, vi que uma estrela que há muito eu tentava resgatar com as mãos esfarelou-se no ar e que dentro de mim uma outra se apagou, vi metade do rio de angústia que corria dentro de mim fluir para fora e ser substituído por uma plenitude densa, vi o carinho daquela garota quase se materializar por mim. Então, como eu poderia falar de um desses eventos isolados quando todos eles constroem o que eu sou hoje e me fazem diferente do que eu era semana passada?
domingo, 23 de novembro de 2014
Trilha Sonora da Vida Real
Adoro o jeito como esses fones de ouvido
me transportam para dentro do universo dos filmes que eu assisto. Exatamente a
mesma coisa, aquela música deliciosa de fundo, os passos cadenciados, os
passantes, uns enamorados aqui e ali transitando e eu dentro daqueles fones,
presa numa plenitude, num silêncio, numa felicidade pura que nasce desse moço que diz, com
essa voz suave e esses olhos azuis para eu seguir meu coração. Então me
imagino dentro de um carro qualquer, dirigindo até a sua casa pra dizer que
senti sua falta, que quase morri de saudades, que pode me mandar embora que eu
não vou, que vou ficar aqui e dormir na sua porta se for preciso. Tem as luzes amarelas dos postes que me
iluminam pela metade, que incandescem meu coração. Eu olho para baixo e vejo os
mesmos pés de sempre no ritmo da música; só que o cadarço está desamarrado, mas
não me importo. Adoro ver os desenhos que se formam nas luzes à noite e outro
verso me obriga a olhar para as estrelas, aí eu me lembro de você de novo, o
moço diz mais uma vez para eu seguir meu coração e a única saída que me resta é
estar aqui, dentro de cada uma dessas palavras.
segunda-feira, 10 de novembro de 2014
Rudeza de poesia
Se a vida tivesse sido mais branda, iria querer ser poeta.
Não vejo poesia em rudeza.
Eu vejo. Olhe aquelas mãos calejadas, os olhos sofridos, as
rugas de sol, as lágrimas que quase não se deixam ver, que se escondem para
poderem se revelar, ouça a música melancólica que ecoa do rádio à pilha e
sinta. Feche esses olhos e respire, inspire profundamente e absorva a graça
desse ambiente, sinta a poesia dolorosa que desce por sobre as ferramentas, a
mesma música que soa no mesmo horário sem faltar uma vez sequer, uma música
atrelada a uma fé e uma crença de que dias melhores virão, que o sofrimento um
dia se abranda, que as certezas, qualquer dia desses se desfazem e a alma dura
será lapidada. Não me venha dizer que aqui não há poesia, você que não enxerga,
mas há, em todos os cantos, nas quinas dos móveis, nos repentes e na saciedade
do corpo. Eu estou vendo agora que o que há aqui são mais do que pedras, mais
do que a rudeza que você vê, isto é só uma casca. Retira a venda que lhe tapa os
olhos da alma e enxerga, vê como eu vejo.
Convenceu-me.
quarta-feira, 5 de novembro de 2014
Quando ela se foi
Quando ela foi embora eu pensei que ia morrer, mas ainda
estou aqui, vivo. Mas, por algum tempo eu estive morto, por um bom tempo. Eu
andava, me movimentava, mas não tinha vontade, não, eu estava morto. Quando ela
se foi, foi exatamente como quando eu quebrei aquele jarro caro da mamãe, eu
não sabia o que fazer, estava ali espatifado no chão e eu só sentei e chorei.
Chorei até não poder mais, até minhas mandíbulas doerem, meus olhos queimarem e
eu estar tão cansado que simplesmente adormeci. Quando ela se foi, a brisa
doía, os passos, as flores, o pôr-do-sol. No dia em que ela partiu, meu coração
pesou no peito e minhas mãos não suportavam a dor que lhes era oferecida assim.
Quando ela se foi eu era um menino, um poeta sonhador, um rapazinho com um par
de calças, uns sapatos mais ou menos e meia dúzia de moedas no bolso. Quando
ela se foi eu não escrevia como agora. Quando ela se foi eu rasguei tudo o que
tinha e me desfiz, me matei ali dentro e me tornei, assim sem querer, um homem,
um desgraçado, desses tipos que não valem um tostão furado, um cafajeste, já
sabia do coração vagabundo que tinha, mas quando ela se foi ele não via mais
razão para alimentar virtudes. Quando ela se foi o que restou foram migalhas,
pois o que era meu já não era. Quando ela partiu, naquela madrugada, eu morri.
domingo, 2 de novembro de 2014
Rodriguinho
“E aí, man?”
Virei para
ver quem era e vi o Rodriguinho com um cigarrinho pendendo no canto da boca,
metido numa calça de couro que sabe lá Deus como foi parar ali.
“Mas que
diabo é isso agora, Rodrigo, virou bicha?”
“Que isso,
man, deixa de pilha, to na mó vibe aqui. Conheci umas mina que disseram que
isso era o que tava na moda agora.” – abriu a jaqueta e girou feito malandro
pra eu ver a roupa inteira. Rodriguinho falava com um sotaque afetado, puxando os
esses e demorando nas vogais.
“Moda? Pra
mim isso é coisa de viado e pronto, olha essas calças, pelamor, Rodrigo. Até o
sotaque tu afeta.”
“Colé irmão, ta dando uma de moralista agora?
Tu nunca foi dessa.”
“Moralista não, sou macho.”
“Moralista não, sou macho.”
“Um puto
moralista e homofóbico, é o que tu é, man.”
“Meu Deus,
Rodrigo, desde quando tu é viado?”
“Relaxa aí,
Brô, que o que eu faço é cultuar o amor e não o falso moralismo, deixa de treta
e vem comigo que te mostro umas gatas.”
Relutei, mas acabei indo.
“Que diabo é
isso aqui, Rodrigo? Tamo no Woodstock?”
“Ah, man,
bem que a gente queria, mas não tem a Janis nem o Jimmy, aí é foda, mas a gente
coloca os discos, pô. Toca que é uma beleza e os cara se amarram.”
“Ai meu pai, minha vó que tava certa, esse mundo tá perdido mesmo.”
quinta-feira, 30 de outubro de 2014
segunda-feira, 27 de outubro de 2014
Das janelas
As janelas vazias solitárias, solidárias ao
poeta inquieto e insone que se debruça sobre a oitava folha rabiscada com a
loucura que viveu nas últimas horas, embebida em lágrimas, da qual nem sentia o
fervor. O jovem rapaz descabelava-se, estava sozinho e na solidão encontrava
sua morada pois não precisava conter sua insanidade e a espalhava por todo o
espaço. Estavam loucos os livros, os sofás, a cama, os talheres, especialmente
as facas. Não precisava e transcendia na transfusão do seu sangue para o papel,
da agonia para os versos, da loucura para os sonetos, do devaneio para as
estrofes, da abstração para a prosa e o romance.
domingo, 26 de outubro de 2014
As cláusulas de Anne Rich
Era uma advogadazinha
recém formada, de estatura média, cabelos cor de cobre e um humor péssimo. “Cale a boca, Duncan!” foi o que disse
pouco antes da primeira entrevista de emprego. Vestida com o terninho preto, de
salto, muito bem maquiada, insegura demais, mas pisava firme pra não deixar
isso transparecer. Ao acaso, percebeu que o entrevistador era o amor de sua
vida. Mas vejam que inconveniente é o amor. Por um instante desafixou os olhos
dele e colocou-os no chão de madeira. Repare só se ele percebe o rubor, se viesse a perguntar, ela diria que era do
blush que passou apressada e não percebeu o exagero, ele nem questionaria.
Prosseguindo com a entrevista, o rapaz de cabelos ondulados e seus trinta e
poucos anos perguntava suas qualificações enquanto ela se perguntava se ele era
solteiro. “Não, que nada, bonito desse
jeito, com esse sorriso, deve ter alguma sortuda que o laçou. Ou pode ser gay,
é triste, mas é uma possibilidade. Ai, não, gay não.” E ele seguia
desnorteado enquanto ela o olhava sem responder. “A senhora não entendeu a pergunta?” “Ah, desculpe, é senhorita.” Ele
ofereceu água, ela bebeu e marcou o copo com o batom bordô. Ele disse que
compreendia o nervosismo e então começaram a conversar sobre a faculdade,
depois o ensino médio, fundamental, os amigos de infância, as broncas que
levavam das professoras e no fim da entrevista, tinham um jantar marcado. Anne
saiu de lá satisfeita, não tinha conseguido o emprego, mas garantira a vaga com
o amor de sua vida. E, ao ir embora, até sorriu pro Duncan.
domingo, 12 de outubro de 2014
Apenas três dias? Sim. Que se passa
pelos lados de cá? Pois conto-lhe o que me contaram, que era preciso, que quase
aos prantos deitou palavras desferidas feito navalhas esperando acertar, mas
nem raspou. Nem de leve? Nem de leve, foi-se achando que estava tudo bem e
deveras estava. Mas ela não sabia, sabia? Que nada, era tapada feito uma porta,
que galhofas. Qual seria minha surpresa se fosse ao contrário, já não queria
acabar com tudo? Querer queria, mas não sabia como. Fez-me favor. Tive outras dúzias
daqueles sonhos de terror. Que dizem? Nem sei, mas me andam a atormentar. De
dia à noite. Não dormes então. É, deixo-te livre para partir. Ao menos um de
nós precisa de um final feliz.
quinta-feira, 2 de outubro de 2014
Diz-se
Diz-se que ela está fadada a um fogo infernal, do qual não
se tem controle, um fogo que é amor, paixão e tudo, que, quase literalmente,
arde, pesa e sangra no peito, que revira o estômago. Diz-se de um amor profano,
que é impuro, mas intenso e cheio de pureza, que é verdade que, de novo, arde.
Que é dor que se rompe, que são dedos que se entrelaçam, que são colos que se
unem, que são seios que se encontram. Diz-se o que há de dizer e diz-se o que
diz o povo, que quase nada sabe e muito fala. Diz-se do amor que é pecado, que
pecado é amor? Hediondo, crime hediondo. Isso não se faz, verdadeiro atentado
às células, verdadeira fadiga. Novo ser não nasce, mas amor transcende e almas
se juntam e morrem à espera uma da outra, são duas almas, são só almas e amor é
fogo. Fogo que destrói, que faz renascer, que mata.
segunda-feira, 29 de setembro de 2014
Memórias
Ninguém entende direito
esse jeito todo torto de amarmos e vivermos intensamente, nos consumindo com
essa droga que se chama vida, ardendo com o peito em fogo, falando alto,
batendo os pés e roendo as unhas, soltando um ou dois palavrões de vez em quando,
chorando por sentir falta de alguém ou simplesmente por sentir, deixando a
emoção sobrepor a razão. Mas somos meio sujos, me desculpe, mas de vez em
quando parece que há algum tipo de deus sádico que deixa o mal viver, que o
deixa habitar em nós. Nós brigamos, gritamos, discutimos e no fim sempre
acabamos cuidando uns dos outros, rimos e choramos juntos, temos algo tão
intenso e tão puro. Mais uma tragada para aliviar a dor, uma lanterna para
dissipar o medo do escuro, um abraço apertado para afastar a solidão. E no fim, estamos todos sozinhos com nossas
memórias.
terça-feira, 23 de setembro de 2014
O patrulheiro notívago
De madrugada o único som que se
ouve pelo bairro é o apito do patrulheiro notívago ecoando pelas janelas
abertas, solitárias. E eu pensava que ela me encantou, eu sabia que me
encantaria, então não quis colocar meu outro amor recente na gaveta, a ignorei,
brinquei e a evitei tanto quanto pude, mas no dia em que passei embaixo da
escada, no outro em que andei em sua direção sem enxergá-la, mas ela me via,
foi inevitável que eu me rendesse, e eu sabia. Mas por saber não foi menos
bonito, absorvi toda a sua energia num lapso de curiosidade, noutro de
impaciência, noutro de indecisão. Sabia que cederia no instante em que ela
executou aquele balé irresistível de prender os cabelos e revelar a nuca,
aquilo me encanta, mas me encantou mais porque meus olhos contradisseram tudo
aquilo o que meu pensamento havia determinado, minha mente sucumbia irracional
e aqueles olhos que olhavam minha boca sedenta de riso só me perguntavam se nos
falaríamos novamente.
segunda-feira, 22 de setembro de 2014
A buscadora
Ela caçava tudo com seus olhos ferinos de chacal faminto. Tinha a beleza
arrebatadora, quase divina, mas não dava a mínima para isso, o importante mesmo
era achar seu alvo. Procurava por nem sabe o que, mas vivia com as faces
vincadas e os olhos atentos, despia-se do medo que nem sabia que tinha. Andava
com passos felinos e quando menos se esperava, ela estava lá, quase sem ser
percebida, à procura de algo. Não descansava enquanto não encontrasse, não dava
o braço a torcer, não desistia de seu caminho. Dizia qualquer coisa desconexa e
que ninguém entenderia sua busca. E não entendiam mesmo. Dizia que era sua
missão, mas não acreditava nas estrelas, nem nos astros. Disse certo dia que
foi a Serpente que lhe incumbiu de tal missão. Mas quando fui perguntar que tal
Serpente era essa, ela já tinha sumido bem debaixo das minhas vistas.
No mar de mim
Ela tinha um medo absurdo de se
afogar, mas viu o mar e como que por encanto foi atraída por ele, colocou os
pés: água fria, agradável. Depois foi entrando, quando a água estava na altura
dos tornozelos, o mar começou a fazer movimentos estranhos, recuava, parou de chegar aos
seus pés, então ela ia cada vez mais fundo para buscá-lo. Quando deu por si, a
água estava na altura da cintura e não avançava para ela. De repente, retornou
a avançar com força, com toda a força e ela foi sendo dominada. Correu para
fora e o mar se acalmou. Não era possível que ela tivesse provocado tamanha
turbulência. E então ela pensou que o mar engolia seus pensamentos e seus
sentimentos. Sou eu, quem está revolto é meu ser, a tormenta que se agrava toda
vez. Parou de pensar e entrou no mar calmo, que a essa altura lhe tirava os
sentidos, e o barulho do mar, aquela música salgada invadia seus ouvidos e ela
se afogava no mar de si que pensava existir.
quinta-feira, 18 de setembro de 2014
Castelo de areia
Era fim de maio quando ela me mostrou tudo o que tinha sentido e vivido
nos últimos dois ou três meses. Ela copiava cada passo, guardava cada lembrança
e à medida em que eu ia revirando os papéis, ia mergulhando dentro de tudo o
que ela havia vivido – e escrito. Eu me via ali dentro em determinadas linhas,
mas não teria paciência para relatar cada detalhe como ela fez, não tenho
mesmo. Ali eu via uma história de amor se iniciar e definhar. Eu a vi construir
tudo aquilo e vi desmoronar feito castelo de areia que não resiste à força do
mar. A vi levantar e cair, mas ela levanta de novo.
quarta-feira, 17 de setembro de 2014
O lobo e a serpente
Ao amanhecer apercebeu-se do que tinha se
dado na noite anterior. Andava a esgueirar-se
inteira desconfiada de ter sido percebida sem perceber. Sabia que era mau tudo
o que oferecia, bebia-lhe a própria peçonha. Num ato de loucura, o apressou a
beber-lhe o sangue, então o Lobo rasgou a garganta da Serpente num rompante e
no segundo seguinte o veneno escorria pelos olhos. Andava já fascinado pela
destreza que tinha adquirido e matava por prazer, buscava a justiça e andava
só. Andava a correr e corria até prender-se debaixo das garras do Leão e ser
julgado pela Raposa. Percebeu então que ser Lobo e relapso não era assim, bem
desconexo. Percebeu que a Serpente que não tinha força, que era vil e
amaldiçoada. E morreu envenenado com o próprio orgulho.
Lembra das 30 cartas que eu ingenuamente te escrevi mês passado? Pois
então, descobri que em vez de lê-las, você as usava para enrolar seus cigarros
e me tragava aos poucos e queimava tudo o que eu sentia. Mas você é um babaca,
nem percebia que era a mim que você tragava, que era meu coração que entrava
nos seus pulmões junto com a fumaça que contaminava seu corpo inteiro. E quando
me soprava para fora já era ódio ao invés de amor.
Esqueci de escrever que te odeio, que fui
estúpida e você um tremendo cafajeste e isso é até bem clichê, clichê pra
caralho, mas é verdade. A gente fica mesmo meio idiota quando ama. Mas eu não
errei, que nada, eu estava sem meus óculos quando te escolhi, como poderia ver?
A propósito, eu quero que você se dane.
segunda-feira, 15 de setembro de 2014
Aroldo Coelho da Silva Pinto
Aroldo era muito conformista. Todos os
dias levantava-se às sete da manhã, vestia as calças sempre em tons pastéis, a
camisa branca de botões e mangas curtas, a gravata marrom listrada e os sapatos, sempre polidos antes de dormir. Ajustava as calças sempre para dois dedos
abaixo do umbigo, colocava a camiseta sempre cinco centímetros para dentro das
calças, abotoava o cinto sempre no terceiro furo, penteava o cabelo sempre no
sentido horário. Levantava-se depois de oito horas exatas de sono, - era mais
do que suficiente segundo ele – dava cinco passos até o banheiro e demorava os
mesmos vinte minutos para se arrumar.
Sentava-se à mesa sempre muito bem posto,
ereto, com o guardanapo azul no colo, dobrava sempre a primeira ponta,
movimentava os cereais na tigela sempre da esquerda para a direita. Quando saia
para trabalhar, dava sempre um beijo no canto esquerdo da boca da esposa, que
lhe entregava a pasta de camurça sempre deixada na mesa do lado da TV na sala.
Aroldinho dizia que não queria ter filhos
– só iam atrapalhar sua rotina impecável segundo ele. Ia ao trabalho e, em
exatas oito horas estava de volta. Odiava animais – bagunçam tudo, só servem
para bagunçar segundo ele. Tinha sempre os mesmos passos cadenciados, sempre o
mesmo ritmo de trabalho. Chegava em casa, jantava, via TV na sala, ia para o quarto
e tornava à rotina no dia seguinte. (Mas antes de dormir polia os sapatos,
claro.) Aroldinho era até bem feliz assim.
Mas a mulher de Aroldinho não era
conformista. Nem o vizinho da casa na frente da sua. Quando tendo saído cedo do
trabalho – e angustiado por isso – chegou em casa, viu a mulher aos beijos com
Arnaldinho, (o vizinho descontraído, moreno, alto e sedutor da casa da frente)
tomou um susto, mas escondeu-se num arbustinho e esperou Arnaldinho ir embora e
sua mulher se recompor. Chegou e lá estava a mesa posta e deu-lhe um beijo no
canto esquerdo da boca. Aroldinho tinha seu orgulho ferido, mas não ia se
separar, seria uma mudança muito grande, não, nem pensar.
Aroldinho era um corninho manso, e quando o
trabalho acabava cedo ele se sentava no carro e esperava dar o horário de ir
embora para não atrapalhar Arnaldinho e a esposa – ela podia ser feliz assim
segundo ele.
Mas sua mulher não aguentava mais a
monotonia, já estava quase nos 30, queria filhos, um cachorro, um peixinho dourado
que fosse. Queria que ele usasse a camisa para fora da calça ou beijasse o
canto direito da sua boca de vez em quando. Pediu a separação.
Aroldinho descabelou-se todo, chorava o
dia inteiro e viu a mulher ir embora com Arnaldinho. Passou a usar jeans,
camiseta e nem penteava mais o cabelo. Pensou até em suicidar-se, mas em vez
disso comprou um cachorro.
Acasos
“Helena!” – ouvi uma voz máscula gritar meu nome.
Estava sentada
num quiosque à beira da praia e me virei para ver quem me chamava. Era um rapaz
forte, bonito, sarado, corria descamisado, não reconheci, mas podia ser um
ex-colega de classe, do trabalho, de uma festa, sabe-se lá. Me aprumei inteira,
ajeitei o decote e deixei a manga da blusa caindo pelo ombro, ele continuava
correndo.
O moço era uma
verdadeira beldade, sem barba e com o corpinho inteiro definido (do jeito que
eu gosto) e quando corria, o shorts subia e mostrava aquelas pernas (e que
pernas!).
“Helena!” –
gritou mais uma vez. Será que não percebeu que eu já o havia visto?
Chegou perto de
mim e parou, ofegou, apoiou as mãos nos joelhos e voltou a retesar o corpo bem
ereto.
“Moça, a
senhora viu Helena, minha cadela? Ela é inteira branca, pit Bull, porte médio.”
– quase caí da cadeira quando ele falou, não sabia se chorava ou ria da minha
própria cara, mas ele parecia tão desesperado.
“Não,
desculpe, não vi nenhum cachorro por aqui ainda hoje.” – respondi.
“Ah,
obrigado, desculpe incomodar.”
“Não tem
problema.”
E então o
rapaz pôs-se novamente a correr e a gritar por Helena, a cadela. De costas era também
muito bem feito, devo dizer, mas oh coincidência infeliz, viu.
Prezada Vida,
Pare de ficar me dando esperanças, pare de dizer que toda vez que eu sonho com alguém, essa pessoa sente minha falta, que quando está insone talvez pense em mim. Olhe, Vida, não sou a pessoa mais frágil do mundo, mas isso machuca um pouco sabe, feito bater o mindinho em alguma quina, é. Mas relaxe, não ando fazendo cosplay de Bella Swan e um buraco não vai se abrir no meu peito toda vez que seu nome for pronunciado. Mas quando ouço isso meus olhos se enchem e meu coração se aviva. Então não, digo que não, esqueça, vá embora, mas o pensamento não me obedece e volta lá. Todo santo dia. Não sei o que você quer, Vida, mas talvez o problema seja eu, pode ser. Mas não tenho tempo para ficar me lamentando, eu só vim dizer que você está me cansando, escolha melhor suas palavras.
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